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Entrevista: Paulo Lins
O Brasil por trás dos cartões postais

Por: Por Neusa Martinez, de Miami | Sotaque Brasileiro, Número 11, Primavera 2006

Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, fala sobre racismo, criminalidade e miséria

Cena do filme Cidade de Deus
Cena do filme Cidade de Deus (foto: divulgação)

O escritor carioca Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, participou da Feira Internacional do Livro de Miami em novembro de 2005, quando concedeu a entrevista exclusiva abaixo. Durante as quase três horas de conversa, Paulo Lins não escondeu sua preocupação com a criminalidade que assola o Brasil. Em suas respostas, transparecem seu amor pela literatura e o firme propósito de defender os interesses das comunidades da favela.

Um retrato do quotidiano nas favelas, Cidade de Deus é apontado como um dos melhores livros da literatura brasileira da década de 90. Foi traduzido em 27 idiomas e vendeu mais de 500 mil exemplares. O cineasta brasileiro Fernando Meirelles transportou o livro para as telas e recebeu quatro indicações ao Oscar de 2004. Onde são lançados, tanto o filme Cidade de Deus quanto o livro, provocam debates sobre racismo, criminalidade e miséria.

Paulo Lins esclarece que quando escreveu Cidade de Deus não pensava em passar mensagem alguma, mas depois que o livro foi publicado chegou à conclusão que a obra é dirigida à elite. É como dizer: “Toma que o filho é seu. Foi você que fez isso, agora dá um jeito nesse negócio”, dispara.

Neusa Martinez – Você nasceu no Estácio e foi criado na Cidade de Deus. Como é a vida nessas favelas?
Paulo Lins – Quem mora na favela é o trabalhador brasileiro. Há 500 mil pessoas na favela e só 50 estão envolvidas na criminalidade. Você não sabe quem essas pessoas são porque elas vivem escondidas – eu só ficava sabendo dos crimes pela televisão. Agora imagine, se o Brasil tem cerca de mil favelas, são 50 bandidos armados com metralhadoras em cada uma delas.

Neusa Antes de escrever o livro, você participou de uma pesquisa na Cidade de Deus. Houve algum caso que lhe impressionou durante a pesquisa?
Paulo – Teve um sujeito – que está no livro mas não entrou no filme –  que matava as pessoas e as enterrava numa cova comum. Ele só assassinava bandidos e policiais. Depois, entrou para a igreja, saiu da criminalidade, casou e teve filhos. Mas, a polícia não o deixava em paz, o extorquia e espancava. Os policiais não trancafiam bandido e traficante, ficam pedindo grana e, quando o dinheiro acaba, prendem ou matam o sujeito.

Neusa – Então a própria polícia não quer que a criminalidade termine?
Paulo – Não quer porque ganha dinheiro com isso e também porque trafica armas. Os grandes traficantes de armas no Brasil são da polícia. São eles que levam armas e munição aos bandidos. No caso que estava contando, o cara voltou para a criminalidade, mas, desta vez, só matava policiais. Matou uns dez. Ele dizia ter pacto com o diabo, era um psicopata. Ele matava rindo. Quem o matou foi o próprio sogro, com um tiro apenas.

Neusa – Por que é tão difícil acabar com a criminalidade no Brasil?
Paulo – Além das máfias que citei, há ainda os grandes traficantes internacionais que ganham muito dinheiro com a indústria do crime. Se houvesse um esforço político sério, já teríamos posto fim à criminalidade no Brasil. Por outro lado, acho que a sociedade também tem culpa: é racista, paga pouco e não assina carteira de trabalho. Vamos falar um português bem claro: a elite brasileira é muito sacana. Se o brasileiro fosse mais educado, solidário e não quisesse sempre ter lucro em tudo, o nosso país não estaria nessa situação. 

Neusa – A polícia brasileira é a que mata mais no mundo?
Paulo – Sim. A Inglaterra parou quando mataram aquele brasileiro (Jean Charles) no metrô em Londres, mas no Brasil são cometidas várias chacinas e a sociedade joga o problema para o governo resolver. Daí, o babaca (cidadão) se exclui. Isso me deixa indignado. A maior violência que há é a do brasileiro para com o brasileiro. Ninguém está nem aí se a polícia matou 30 pobres e negros. Se o brasileiro exigisse uma polícia boa, com certeza ela seria.

Neusa – Como a polícia ganha pouco no Brasil, provavelmente há policiais morando na favela.
Paulo – Na verdade, é policial pobre matando bandido pobre e vice -versa. Acho que eles não têm consciência disso. Quem manda no Brasil é o branco, as classes média e alta e a elite. São os europeus imigrantes que não estão nem aí com os índios e os negros. Os imigrantes que chegaram no Brasil apoiaram a escravidão e se deram bem graças a ela.

Neusa – As pessoas ficam chocadas com a realidade brasileira nas palestras que você dá por esse mundo afora?
Paulo – Com certeza. Em uma palestra no Festival de Literatura de Berlim alguém perguntou como é que o Brasil permite que uma criança de 12 anos carregue uma metralhadora. Rapidamente respondi: ‘Porque você permite que o seu governo venda armas para o Brasil. A arma só está na mão dessa criança porque o seu país a fabricou.’ Os alemães se levantaram batendo palmas e a pessoa que fez a pergunta se retirou.

Neusa – Por que você passou os direitos de filmar Cidade de Deus para o Fernando Meirelles e não para outro cineasta?
Paulo – Quando o livro foi lançado, cinco ou seis cineastas quiseram comprar os direitos. Acabamos escolhendo o que pareceu ter o melhor projeto. Escolhemos o Meirelles principalmente porque ele queria trabalhar com atores da própria favela. Li o roteiro antes de filmar, dei algumas opiniões, mas tudo foi muito informal. Participei como ator no filme, fazendo um padre, mas cortaram a minha cena (risos). 

Neusa – Como foi concorrer ao Oscar por melhor roteiro adaptado?
Paulo – Vejo o Oscar como um comércio. Vi todos os artistas e produtores, fiz contatos e fiquei amigo de alguns.

Neusa – O que você acha da febre Paulo Coelho pelo mundo?
Paulo – Paulo Coelho acaba divulgando o Brasil, a literatura e outros autores brasileiros. Tem gente que não gosta dele porque ele faz uma coisa para vender, mas todo mudo edita livro para vender.   

Neusa – Como foi seu primeiro encontro com Paulo Coelho?
Paulo – Foi numa feira enorme na Suécia. O Paulo Coelho me puxou pelo braço e disse: ‘vamos dar uma volta no salão. Vai falando qualquer coisa e me deixe abraçar você de vez em quando.’ Depois, ele se despediu dizendo: ‘Já te ajudei. Agora siga o teu caminho’. Quando ele se afastou, a imprensa toda veio atrás de mim (risos). O Paulo Coelho ficou observando de longe e fez sinal de positivo.

Neusa – Como você lida com a fama?
Paulo – A gente sai na mídia, fica famoso e as pessoas acham que somos importantes. Estou certo que o motorista que leva meu filho para o colégio é mais importante do que eu. O médico é mais importante do que o Fernando Meirelles e o Spike Lee (cineasta americano conhecido por filmes que retratam o racismo). A questão da fama é a pessoa saber que ela é igual a uma caixa de sabão: tem que anunciar porque tem que vender. É pura besteira uma pessoa se encantar com isso. Por outro lado, não sou santo. Já que me deram essa chance, às vezes tiro proveito da fama e abuso um pouquinho (risos).

* Entrevista publicada originalmente no jornal AcheiUSA, Flórida, Estados Unidos, em dezembro de 2005 - neusa@acheiusa.com

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