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Crônica - A insuportável insensatez do ser
Por: Lelê Samiranda | Sotaque Brasileiro, Número 11, Primavera 2006
Em Toronto, são muitas as opções para quem quer se divertir com os filhos e gastar pouco
Eu estava por perto e vi um alvoroço. Havia tanta gente amontoada no parque da cidade! Eram os fotógrafos querendo focos originais, as crianças querendo “o proibido”, os adultos querendo sempre presenciar a miserável condição humana para se colocar acima dela.
Murmúrios e murmúrios, e os fatos, em flashes, foram sendo apresentados. O roteiro do interrogatório, após a revisão final, ficou mais ou menos como o seguinte.
Sim, eles estavam sentados no banco do parque, aparentemente discutindo. Sim, eles pareciam consternados. Não, ela não parecia feliz. Sim, ele começou a gesticular muito. Sim, após uns dez minutos, parece que a discussão acabou e eles se beijaram. Talvez, talvez a discussão tivesse terminado mesmo.
O fato era que as bocas-de-milhões-de-palavras disseram que, após o romântico beijo, o casal foi para trás da moita, atrás do banco. As mulheres — NÃO! — não acreditavam... Teriam mesmo ido fazer “aquilo” logo ali, em praça pública? As crianças — SIM! — queriam ver e ouvir tudo que se passava. E passou: o tempo.
Depois de uns minutos, diziam, de uns quarenta minutos, o casal ainda não tinha saído de lá.
Ouviu-se dizer que alguém falou que o desfecho aconteceu mais ou menos assim: uma senhora, sim, ela havia chamado o guarda. Não, ela não sabia quem eram aquelas pessoas. Sim, talvez estivessem somente conversando (fato de que ela duvidava muito). Era bom que o senhor guarda fosse verificar. E foi.
Foi o que aconteceu. Chegando lá, o quadro era deplorável, e é aí que está o alvoroço do começo da nossa história. Ela: morta! Ele: morto!
Ninguém acreditava. Com certeza, ele a tinha matado, depois a si próprio. Sim, seria possível. Talvez... Não, ela o tinha matado, e depois a si própria.
Nossa!
No entanto, chegou alguém esbaforido para interromper o roteiro. Disse que havia visto os dois a três quadras do parque, andando de mãos dadas. Disse...
— Disse? Eu disse isso? Não queria dizer...
— O que você quer dizer, exatamente?
— Eu não te amo mais, a partir deste momento. Você é intolerável, insuportável!
Mas não estavam de mãos dadas, caminhando? Como dizer que não se ama, simplesmente assim! Seria a cruel objetividade do ser? Seria o gelo-ácido-veneno que há dentro de nós?
O fim do diálogo, pelo que se pôde ouvir, foi mais ou menos este:
— Insuportável por quê? Só porque disse que estou grávida e não quero ser mãe? Por que toda mulher tem de querer isso?
— Toda mulher tem de ser mãe... E, além do mais, você está grávida e quer fazer... Eu não consigo nem dizer a palavra “disso”!
A discussão continuou. Foi então que se sentaram no banco do parque. E o curioso os havia seguido até ali. Ela dizendo:
— Não vamos brigar por isso. É só uma brincadeira. Eu queria ver o que você ia dizer... Calma, calma.
Aqui portanto eles deram aquele beijo que as pessoas viram. Depois... aquilo! A morte!
E a multidão: também, isso é coisa que se brinque! Assunto mais sério... Ela se arrependeu de ter dito que não queria o bebê, era isso. Ele tinha fingido acreditar, mas não pudera perdoar aquilo. Naquele momento, decidira matá-la. Afinal, ele tinha um motivo. Aquilo era grave, não? Sim, ele fora digno. Sim... Uns concordavam. Não, ele não podia ter feito aquilo! Coisa grave, não? Sim... outros diziam.
Encurtando: autópsia — nenhuma gravidez; laudo da ginecologista: a moça era estéril; laudo da perícia: impossível um dos dois ter assassinado o companheiro e depois se matado; semana seguinte, no mesmo dia da semana, mesmo horário, mesmo parque, outro casal aparece morto. Suspeitava-se de um serial killer pelas redondezas.
O queixo da multidão caiu. Seria falta de fé no talvez? Sim ou não?
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