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Entrevista: Cecilia Rocha
Por: Rita Simone | Sotaque Brasileiro, Número 11, Primavera 2006
Uma brasileira que faz a diferença no Canadá - Cecilia Rocha, diretora do centro de segurança alimentar da Ryerson, atua em importantes parcerias nesta área entre o Canadá, Brasil e Angola

Cecilia Rocha (Foto: divulgação). |
Ser professora na Ryerson University, em Toronto, já poderia fazer da economista Cecilia Rocha uma das grandes expoentes intelectuais da comunidade brasileira no Canadá. Mas seu olhar atento aos indicadores da fome e miséria no Brasil a faz transcender a produção acadêmica e atuar em prol de políticas públicas coerentes para melhorar a vida de muitos brasileiros.
Cecilia Rocha possui um suave tom de voz e um jeito mineiro de ser. Com 1,50 m de altura e muita simplicidade, ela é uma dessas raras pessoas que nos inspiram confiança no primeiro contato. Sua atitude em relação a temas como segurança alimentar, fome e pobreza a colocam como peça fundamental no desenvolvimento de importantes parcerias entre o Canadá, Brasil e Angola.
Em entrevista à Sotaque Brasileiro na Ryerson University, onde é diretora do Centre for Studies in Food Security, ela falou sobre suas experiências e o projeto de capacitação desenvolvido pela universidade e financiado pela Cida (Canadian International Development Agency), com parceiros brasileiros. Falou também sobre sua ligação com o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que foi seu contemporâneo na York University, na época em que ele viveu no Canadá.
Sotaque Brasileiro – Em quais circunstâncias a senhora deixou o Brasil e veio para o Canadá?
Cecilia Rocha – Eu vim para o Canadá muito jovem, há quase 30 anos, acompanhando meu namorado na época, que veio fazer doutorado na York University. Comecei a estudar e fiz todo o programa em economia da York e, em seguida, o doutorado.
Sotaque – Você tem viajado muito entre as Américas do Norte e do Sul e África, trabalhando a questão da segurança alimentar. Por que essa opção e como está sendo a experiência?
Cecilia Rocha – Quando fiz o doutorado, minha tese foi sobre o mercado de trabalho informal no Brasil. Um dos mercados estudados foi o de alimentos, tanto na produção como venda e industrialização. A fome e a miséria no Brasil sempre foram temas que me interessaram muito. Após terminar o doutorado, fui dar aula no departamento de economia da York. Neste período, mudei meu enfoque para desenvolvimento econômico em países do chamado terceiro mundo. Em 1997, fui convidada para fazer um trabalho sobre as políticas de segurança alimentar que estavam sendo desenvolvidas pelo governo municipal de Belo Horizonte. Isto me pôs em contato com o tema (da segurança alimentar). Quando estava desenvolvendo o trabalho, percebi que tinha muita afinidade com a questão e passei a me interessar cada vez mais.
Sotaque – Por que o interesse em segurança alimentar?
Cecilia Rocha – O conceito de segurança alimentar resume uma porção de prioridades em termos de desenvolvimento econômico-social. Resume também as prioridades com relação ao problema da pobreza no mundo. Desde criança, tenho visto a fome de perto. Venho de uma família pobre e fui criada com valores que nos faziam pensar sobre fome e pobreza. Desde muito jovem, sempre quis fazer algum trabalho sobre essas questões. Hoje, tenho fé que é possível, sim, acabarmos com a fome no Brasil. As estatísticas mostram que isso é possível em termos técnicos, mas sabemos que a questão é mais histórico-política do que técnica.
Sotaque – Como foi sua migração da área de economia para a escola de nutrição da Ryerson e quais os principais projetos que a senhora desenvolve?
Cecilia Rocha – Após meu trabalho em Belo Horizonte, por coincidência, a escola de nutrição da Ryerson começou a desenvolver um currículo em segurança alimentar, então vim trabalhar com eles. Associei-me ao Centre for Studies in Food Security e, há três anos, comecei a desenvolver um projeto visando colaborar com a formação de pessoal nessa área, no Brasil. A idéia surgiu porque no governo Lula, e até antes dele, surgiram no país, através dos Conselhos Locais em segurança alimentar, algumas oportunidades. Pensamos que seria importante capacitarmos os interessados no processo, para que estes conselhos pudessem realmente fazer a diferença. Entrei em contato com alguns possíveis parceiros e, através do Centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional, no Rio de Janeiro, conseguimos o financiamento da Cida (Canadian International Development Agency) para desenvolvermos no Brasil um trabalho de capacitação em segurança alimentar por seis anos. Como parte do projeto, estendemos nossas atividades para Angola.
Sotaque – Como funciona o projeto?
Dra. Cecilia Rocha – A ideia é que ele seja um catalisador de capacitação em segurança alimentar no Brasil e em outros países de língua oficial portuguesa. O projeto tem duas modalidades diferentes. Uma são os cursos de pós-graduação a longa distância, com certificação da Ryerson University e desenvolvidos em português através de uma parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A outra modalidade são as oficinas de segurança alimentar para pessoas que trabalham em organizações públicas e privadas. Nesta primeira fase do projeto no Brasil, investimos em Araçuaí (MG), Juazeiro (BA) e Fortaleza (CE). Na África, estamos começando por Angola.
Sotaque – Você foi contemporânea na York University do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, quando ele viveu no Canadá como refugiado político. Como foi essa convivência?
Cecilia Rocha – Nós fomos muito amigos. O Betinho, nos anos 70, estava fazendo o doutorado em ciências políticas na York. Nossa amizade começou através do Brazilian Studies, um grupo de estudos que ele havia formado na York e que hoje se chama Cerlac (Centro de Estudos da América Latina e do Caribe). Começamos a trabalhar juntos e compartilhar notícias do Brasil, mais difíceis naquela época pois não havia a internet. Depois ele foi para o México e, com a anistia, regressou para o Brasil. Foi muito bom ver o trabalho que o Betinho realizou lá. Percebi que o exílio não foram meros anos de espera para ele. Betinho acumulou conhecimentos aqui e os implantou no Brasil.
Sotaque – Você está coordenando o Projeto Betinho em Toronto. Como surgiu a idéia?
Dra. Cecilia Rocha – Em março de 2004, Debbie Field, do FoodShare Toronto, Wayne Roberts, do Toronto Food Policy Council, Nick Saul, do The Stop Community Food Centre, e eu fomos convidados pelo governo brasileiro a assistir ao Segundo Congresso Nacional de Segurança Alimentar e Nutrição, em Olinda (PE). O evento tinha dois patronos, Josué de Castro e Betinho. Quando retornamos, os canadenses sentiram a necessidade de reascender a conexão entre Toronto e Betinho. Surgiu então, a idéia de criar um projeto para celebrar os 70 anos dele – se ele estivesse vivo, faria 70 anos em novembro de 2005. A idéia é construir um forno comunitário dedicado ao Betinho no Wychwood Park em Toronto. O projeto foi lançado em dezembro de 2005 e conta com o trabalho de voluntários para arrecadar cerca de 25 mil dólares para construirmos o forno. Estamos buscando parcerias e doações. Tenho fé que vamos conseguir levar o projeto adiante.
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