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Portfolio: Teco Guerreiro
Por: Luciana Tuzino | Sotaque Brasileiro, Número 11, Primavera 2006
Com criatividade e boa dose de humor, o ilustrador Teco Guerreiro construiu uma inspiradora carreira internacional
As ilustrações do brasileiro Teco Guerreiro estampam as publicações mais tarimbadas do Canadá, como os jornais The Globe and Mail e The Toronto Star. Seus trabalhos também podem ser vistos em publicações mundo afora, nas Filipinas, no Japão, Chile e na Argentina. Nos EUA, ele mostrou seu traço inconfundível no The New York Times. Mas o reconhecimento não veio da noite para o dia.
Teco Guerreiro estava entre os muitos brasileiros que tiveram de dar uma guinada na vida por causa do efeito desastroso do governo Collor de Mello sobre as finanças do país. Em 1990, depois de traçar uma carreira invejável no Brasil na editoria de arte da revista Cláudia e como diretor de arte em agências de publicidade e de ter seus trabalhos estampados em publicações como Playboy, Quatro Rodas e Jornal da Tarde, o ilustrador embarcou para o Canadá. “Já que teria de recomeçar do zero, escolhi um país sem tanta roubalheira. Estava cansado de testemunhar a exploração da miséria e o FMI (Fundo Monetário Internacional) sugando o nosso sangue. O Collor foi a gota d’ água”, conta.
Ao chegar em Toronto, sem conhecer ninguém na cidade, Teco trancou-se em um quarto de hotel com várias revistas e jornais canadenses a fim de pesquisar o mercado. Leu todos os expedientes, listou os nomes dos diretores de arte e anotou o que queria dizer a eles ao telefone. Mais tarde, descobriu que não estava usando os termos certos e que não tinha o currículo adequado ao formato adotado no país. “Não sabia, por exemplo, o que significava drop in quando pediam para eu levar meu portfolio nas redações. Ficava pensando se tinha algo a ver com torneira, pois drop também siginifica pingar”, diverte-se.
Teco saiu batendo de porta em porta com seu portfolio embaixo do braço. “Todas as portas se abrem para um sujeito de terno e gravata. Vesti um belo sobretudo a la anos 40 e fui entrando nas redações. Bem vestido, mas sem um tostão no bolso”, lembra, bem-humorado, o ilustrador. Na redação do The Toronto Star, ele foi entrando e perguntando pelo editor de business, como se o conhecesse. Quando o editor quis saber quem o tinha indicado, Teco respondeu “eu mesmo”. A estratégia deu certo. Teco publicou seu primeiro trabalho no Canadá 15 dias depois de chegar ao país, no The Star. A partir daí, o estilo despojado do ilustrador brasileiro foi conquistando admiradores pelo país e hoje ele faz um trabalho independente reconhecidíssimo no mercado editorial e publicitário. O segredo do sucesso, explica ele, é a brasilidade, o bom-humor. “Não confundo folha de bananeira com folha de palmeira”, brinca. “Apresentei um estilo novo, forte, bem pessoal e cheio de humor. Fora do óbvio ululante.” O mercado procura e precisa de ilustradores com forte estilo próprio, como o dos brasileiros Ziraldo e Millôr Fernandes, explica Teco.
Falta de talento
A popularização do computador e a proliferação de designers gráficos no mercado, diz Teco Guerreiro, teve impacto negativo sobre o ilustrador, que se viu obrigado a repensar suas práticas. Para Teco, o computador favoreceu a falta de talento no mercado. “E mais: no Brasil o filhinho de papai é que acaba se dando bem porque tem acesso à tecnologia.”
Em seus trabalhos, Teco casa as ferramentas do computador ao desenho feito à mão. “Ainda consigo desenhar qualquer coisa e ser mais rápido do que o computador”, diz. Já uma grande parcela da nova geração de artistas gráficos de hoje, ressalta ele, além de não ter um estilo definido não consegue criar sem a ajuda do computador. “Um ilustrador ou um designer gráfico de talento conhece todas as ferramentas, do lápis à tipografia, e consegue criar na raça.”
Aos interessados em entrar no mercado de design gráfico e ilustração na América do Norte, Teco ressalta que é importante escolher um curso de renome, como os oferecidos pelo Sheridan College, em Toronto, e fazer parte de associações que regulamentam a profissão como a CAPIC, Canadian Association of Photographers and Illustrators in Communication, e a RGD (Registered Graphic Designers). Para se destacar no mercado, a dica é manter-se informado sobre tudo, ter um estilo próprio que seja versátil, muita dedicação e principalmente bom humor para enfrentar tanto os dias com extrema carga de trabalho quanto aqueles em que os trabalhos simplesmente não aparecem. Outra dica é manter uma reputação de bom profissional. “O mercado canadense é mais sensível que o americano. Um atraso na entrega do trabalho, por exemplo, queima o profissional mais rapidamente aqui do que nos EUA. E pode custar meses ou até anos de atraso na carreira”, avisa.
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