Voltar
Brasileiros na Inglaterra - Na terra da rainha
Por: Luciana Tuzino e Monica Parker | Sotaque Brasileiro, Numero 12, Verão 2006
A Inglaterra é hoje um dos destinos preferidos de imigrantes brasileiros
Um país cinza com gente vestida de preto, é assim que Ismael Suwa Zuazo, 26 anos, descreve a Inglaterra. Se a terra da realeza britânica está sempre com cara de tarde chuvosa, por que ele e outros tantos jovens do país tropical – estima-se que há 50 mil brasileiros só em Londres – a escolheram para viver ou estudar? “É porque lá a vida é muito boa. Há várias opções de lazer, baladas, programas culturais. Em Londres, você pode acordar às 2h na segunda-feira e encontrar um museu aberto”, diz Ismael, que pegou o bônus de final de ano e embarcou para Londres, onde morou durante quatro anos.
A primeira opção de Ismael era os Estados Unidos, mas ele acabou desistindo de tentar a sorte na América por causa da dificuldade para conseguir o visto. Quando o dinheiro acabou, Ismael trocou o visto de turista pelo de estudante e começou a “fazer os trabalhos que os ingleses descartam”. Lavou prato no porão de um restaurante árabe, foi garçom e barman. Depois que dominou bem o idioma, chegou à gerência de uma loja. Com o que ganhava, ele conseguiu viajar para boa parte da Europa. Seduzidos pela nova vida de Ismael, a irmã dele e dois amigos também foram morar em Londres. “O começo é difícil, principalmente para quem não fala inglês. Mas quem já enfrentou a vida dura no Japão se dá bem em qualquer lugar do mundo”, diz Ismael, que morou na terra do sol nascente antes de mudar-se para Londres.
A Inglaterra nunca teve tantos brasileiros como hoje. O fenômeno se deve ao desvio do foco migratório dos Estados Unidos para a Inglaterra depois dos atentados de 11 de setembro, que provocaram o rigoroso controle de entrada de estrangeiros nos EUA. Antes disso, porém, a Inglaterra já atraía brasileiros por não exigir visto prévio. Em 1999, graças ao primeiro ministro Tony Blair a política britânica de imigração ficou ainda mais flexível. Passou a permitir que estudantes matriculados em cursos com duração superior a seis meses possam trabalhar part-time durante o curso – até 20 horas semanais em período diurno – e em tempo integral nas férias. Vale ressaltar que quem opta por cursos que duram menos de seis meses não têm permissão para trabalhar na Inglaterra.
A entrada da Inglaterra na União Européia (UE) facilitou o acesso de brasileiros com ascendência européia e passaporte europeu, que podem trabalhar em qualquer país da UE. Segundo Amélia Fernandes Alves, do departamento de imprensa da Embaixada do Brasil em Londres, é difícil estipular o número exato de brasileiros residentes no Reino Unido porque muitos deles entram na região com passaporte europeu. O Reino Unido é a parte da Europa formada por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.
Barreiras culturais
Os primeiros dias da vida longe do Brasil são um desafio para quem imigra para a Inglaterra. Bruno Massi, 23 anos, editor-chefe da revista brasileira JungleDrums, conta que passou por muitas dificuldades ao chegar no país, há 8 meses. “A primeira delas foi quando tive de abrir uma conta no banco e descobri que o comprovante de residência não poderia ser o contrato de aluguel do apartamento.” Para Bruno, outro desafio da vida de imigrante na terra da rainha são os relacionamentos pessoais. “As diferenças culturais entre brasileiros e ingleses são gritantes. Os ingleses são desapegados emocionalmente,” analisa.
Há dez meses em Londres, a estudante paulista Lívia Daniel Bruson, 23 anos, também reclama da diferença cultural nas relações interpessoais. “Além da dificuldade para achar trabalho e um lugar para morar, é difícil fazer amigos. Quando cheguei em Londres, não conhecia a cidade, ainda não estava à vontade com o meu inglês e não conhecia quase ninguém. Fazer contatos por aqui é uma questão de sobrevivência”, diz Lívia.
A ida de brasileiros como Ismael, Bruno e Lívia para a Inglaterra ajudou a disseminar a cultura brasileira no país. Hoje, há vários restaurantes e lojas de produtos brasileiros espalhados por Londres e outras cidades com grande concentração de brasileiros, como Brighton, Bristol, Ipswich, Leiscester, Manchester, Norwich, Oxford, Reading, Swindon e Bornemouth. A comunidade verde-amarela não pára de crescer, mas o mercado de trabalho para brasileiros continua limitado aos setores de catering e limpeza – muitos brasileiros trabalham como motoboys e pedreiros. A média salarial é de CAD$ 12 por hora.
Para saber mais sobre a comunidade brasileira na Inglaterra, acesse os sites www.oilondres.com.br e www.jungledrums.org.
Roteirista aguarda desfecho da história de Jean Charles
O cineasta Henrique Goldman pretende transformar em filme a trágica morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado pela polícia no metrô de Londres em julho de 2005 ao ser confundido com um terrorista. O cineasta diz ter o sinal verde da família de Jean Charles, mas o projeto está parado porque o roteirista, Richard Curson Smith, aguarda a conclusão das investigações. O diretor do filme disse ao jornal Folha de São Paulo que o ator Wagner Moura, de Cidade Baixa, é o mais cotado para viver Jean Charles nas telas.
Voltar
|