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Turismo Brasil - São Paulo de Olhos Puxados
Texo/fotos por: Alessandra Siqueira | Sotaque Brasileiro, Numero 12, Verão 2006

Brasileiros japoneses
Yuriko e Mario Katsuyosi Kumazava barraca herdada da filha

Brasileiros japoneses
O Templo Budista Busshinji localizado na São Joaquim
Brasileiros japoneses
O Torii  daqui em diante São Paulo vira um pedaço do Japão

Um pedacinho do oriente em pleno coração da cidade de São Paulo. Assim é a Liberdade. Situado entre a Avenida Liberdade, a Rua Vergueiro , a Avenida Brigadeiro Luis Antônio e a Rua Domingos de Moraes, o bairro acolheu parte da população oriental que mora na cidade e transformou-se no marco de todos os descendentes asiáticos – primeiro japoneses, e agora também chineses e coreanos.

As tradicionais lanternas, os portaise os jardins orientais fazem a decoração do bairro. Assim como as pessoas que conversam pelas calçadas, os letreiros das lojas misturam os idiomas japonês e português. A diretora de relações públicas da ACAL, Associação Cultural Assistencial da Liberdade, Selva Mara Siqueira Ferreira, afirma que a língua mais falada na Liberdade não é outra senão a da mímica. “A Liberdade é um ponto turístico dos japoneses que vêm conhecer o Brasil ou visitar parentes e amigos. Muitas vezes, não entendemos uma palavra sequer do que falam, então a língua mais falada na Liberdade acaba sendo a dos sinais.”

O comércio é a principal atividade local. Em toda a São Paulo, são mais de 300 estabelecimentos japoneses ou controlados por empresas nipônicas. A comunidade instalou no bairro inúmeros restaurantes, lojas de produtos típicos, associações e entidades culturais. A feira de artesanato, que ocorre no fim de semana, já é tradição há quase 30 anos e tem um público fiel que a freqüenta até mesmo em dias de chuva. Diversidade cultural e religiosa, lendas e história fazem do Bairro da Liberdade um lugar cheio de atrativos.

Tudo é motivo para festas

As festas realizados pela comunidade nipo-brasileira durante todo o ano são o grande destaque do bairro. A primeira delas ocorre em janeiro, na sede social da ACAL, quando é realizado o Shinnenkai, Festa de Confraternização de Ano Novo. Nesta festa, as pessoas agradecem as coisas boas que aconteceram no ano que passou e brindam o que se inicia com o tradicional kampai.

O festival budista Hanamatsuri, ou Festa da Flor, é realizado em abril para comemorar o nascimento do buda Xaquiamuni. Os convidados oferecem flores e chá adocicado ao buda e banham sua imagem. A imagem fica em um altar ornado com flores coloridas chamado de hanamido. O altar representa o jardim em que o buda nasceu e o chá representa a chuva de néctar que caiu no momento de seu nascimento. Conforme a crença popular, as pessoas que assim o homenageiam têm seus pedidos atendidos. O ponto alto do evento é o cortejo do elefante branco, puxado por crianças, que sai da Praça da Liberdade e segue pelas ruas do bairro.

No mês de julho, as ruas são decoradas com ramos de bambu e enfeites de papel colorido, para celebrar o Tanabata Matsuri, uma das maiores manifestações do folclore japonês. Conhecida como Festival das Estrelas, a tradição começou há cerca de 1300 anos no Japão e é reproduzida há 26 anos no Brasil. O festival é inspirado na lenda das estrelas Vega e Altair, personificadas pelos japoneses nas figuras lendárias da princesa Orihime e do príncipe Kengyu. Conta-se que os dois apaixonados esqueceram-se do trabalho e, como punição, foram transformados em estrelas e separados pela via láctea. Para aliviar a dor da separação, foi concedido a eles um dia no ano para se encontrar. Além da cerimônia tradicional, a festa reúne apresentações de teatro e danças folclóricas, além de exposições de ikebana, origami e poesias japonesas (haikais e tankas). A edição deste ano atraiu cerca de 130 mil pessoas, de acordo com a ACAL.
Em dezembro, o Toyo Matsuri, maior festival oriental realizado pela ACAL, apresenta as tradições culturais dos povos do Oriente. Neste mês comemora-se também o Dia do Bairro da Liberdade. As ruas são decoradas e, além das barracas de comidas típicas, um grande palco é montado na Praça da Liberdade, onde se apresentam grupos de dança e cantores de vários estilos musicais. No último dia do ano, ocorre na Praça da Liberdade o Moti Tsijki Matsuri, Festival do Bolinho da Prosperidade, para agradecer as dádivas recebidas e pedir prosperidade e fartura no novo ano. São distribuídos aproximadamente 6 mil saquinhos de bolinho de arroz ao público.

Rua São Joaquim, um resumo do bairro

A Rua São Joaquim pode ser considerada a síntese do bairro: diversidade de povos, religiões e culturas. O comércio não é tão intenso como nas ruas da Glória e Conselheiro Furtado, mas condensa tudo o que há na Liberdade. Na São Joaquim é possível encontrar diversos tipos de expressão ecumênica: o Templo Budista Busshinji de São Paulo é vizinho de duas lojas maçônicas, de uma igreja do Exército da Salvação (protestantismo americano), da Assembléia de Deus de matriz japonesa e da Igreja dos Adventistas.
É na São Joaquim que está o Bunkyo, prédio inaugurado em 1988 e que abriga a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, o Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, o pavilhão japonês e muito mais.  O Bunkyo é o centro de referência da cultura japonesa no Brasil.
A rua também é um dos centros de referência de estudantes da região. A Estação São Joaquim do Metrô deve grande parte de seu movimento aos estudantes do campus das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e dos muitos colégios da região.

Feira de artesanato: diversidade

A sensação de diversidade aumenta nos fins de semana, quando acontece a tradicional Feira de Artesanato da Liberdade.  A feira foi criada em 1975 por Tsuyoshi Mizumoto, primeiro presidente do Rotary Clube Liberdade e da ACAL. No início, era composta somente de barracas de alimentação montadas pelos restaurantes orientais da região. Devido ao enorme sucesso a feira, que recebe uma média de seis mil visitantes por fim de semana, foi ampliada com barracas de artesanato vindas da feira da Praça da República, também muito famosa em São Paulo.
A feira de artesanato mostra que as culturas cada vez se misturam mais: no setor de alimentação, uma barraca de acarajé concorre com as que vendem yakissoba, tempurá e outros pratos típicos orientais. No artesanato, origami, couro, trabalhos em bambu, renda portuguesa, lanternas japoneses, biscuit e muito mais. Já são 60% de artesãos brasileiros concorrendo com 30% de japoneses, 5% de chineses e 5% de outras nacionalidades.

A agitação da feira contrasta com a paciência do artesão Mario Katsuyosi Kumazava, presente há 15 anos com seus trabalhos em kirigami e origami, técnicas de dobradura e recortes em papel. Sorridente, Kumazava comenta: “Tenho cartões para toda as ocasiões e uso também pano, folhas e flores secas na confecção”.

A feira da Liberdade é dividida por setores: artesanato, artes plásticas, numismática (para colecionadores de moedas e medalhas), plantas e alimentação. Funciona aos sábados e domingos, das 10h às 19h, na Praça da Liberdade, estação Liberdade do Metrô. São 220 barracas no domingo, das quais 110 funcionam também aos sábados.

Culinária nipônica

É quase impossível ir à Liberdade e sair de lá sem experimentar a culinária japonesa. Além das barracas de quitutes nipônicos na feira de artesanato, a região é rica em restaurantes típicos, que preservam as tradições no cardápio e na decoração dos ambientes. De self service a comida por quilo, há opções para todos os bolsos. Algumas dicas são os restaurantes da Rua da Glória, como o Kinoshita, ou os da rua Tomás Gonzaga, como o Sushi Yassu e o Gombe.

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