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Entrevista: Dr. Pippi Salle
Por: Valéria Albano | Sotaque Brasileiro, Numero 12, Verão 2006
Especialista em urologia, o médico brasileiro faz parte da renomada equipe do The Hospital for Sick Children, em Toronto.

Dr. Pippi Salle, urologista |
Omédico João Luiz Pippi Salle saiu de Porto Alegre para promover a medicina brasileira mundo afora. Salle é reconhecido internacionalmente por suas contribuições na área de urologia reconstrutiva, anomalias congênitas e tratamento cirúrgico da incontinência urinária, para o qual criou uma técnica cirúrgica que recebeu seu nome.
Durante sete anos, Salle foi chefe do setor de urologia do Children’s Hospital, em Montreal. Hoje, ele faz parte da equipe de urologia do The Hospital for Sick Children, em Toronto, um dos maiores centros pediátricos do mundo. Certa vez, o pai de uma das crianças operadas por Salle doou 50 mil dólares para pesquisas em urologia no The Hospital for Sick Children como forma de agradecimento ao trabalho do médico brasileiro.
Além de trabalhar no hospital, Salle leciona na divisão de urologia da Universidade de Toronto. Ele também é responsável pela vinda de muitos estagiários brasileiros para o The Hospital for Sick Children. Esta foi a forma encontrada por ele para contribuir na formação de médicos brasileiros, pois Salle considera que há falhas no ensino da medicina no Brasil.
Sotaque Brasileiro - Como foi sua jornada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para o The Hospital for Sick Children, em Toronto?
Pippi Salle - Comecei fazendo residência nos Estados Unidos, onde fiquei quatro anos. Depois retornei ao Brasil e trabalhei lá por 13 anos. Durante este período, fiz doutorado e desenvolvi uma técnica cirúrgica para atender crianças que nascem com espinha bífida e sofrem de incontinência urinária total. Planejava fazer pós-doutorado na Inglaterra quando, em 1994, surgiu o convite do The Hospital for Sick Children para apresentar minha técnica. Quando cheguei aqui, operei crianças com problemas sérios de incontinência urinária e fui convidado a permanecer trabalhando no hospital. Trabalhei em 1995 no The Hospital for Sick Children mas a vaga permanente que surgiu foi ocupada por um médico canadense. Porém, nessa mesma época, em 1996, recebi o convite para ser chefe do setor de urologia do Children’s Hospital, em Montreal. Trabalhei lá durante sete anos até surgir uma nova proposta para eu voltar para o The Hospital for Sick Children e dar aula na Universidade de Toronto. Resolvi voltar e faz três anos que trabalho neste hospital.
Sotaque Brasileiro - O senhor é conhecido mundialmente por sua técnica cirúrgica, a qual recebeu seu nome.
Salle - Não fui eu que coloquei meu nome. Esta técnica não é usada muito frequentemente, é específica para crianças que nascem com espinha bífida, ou seja, com problemas na coluna vertebral e que não caminham direito. Elas perdem urina o tempo todo porque o músculo da bexiga não funciona como deveria. Através da minha técnica, cria-se uma válvula na bexiga que permite maior controle urinário.
Sotaque Brasileiro - Qual é o tratamento mais indicado para crianças que sofrem de enurese noturna (perda involuntária de urina durante o sono)?
Salle - Quinze por cento das crianças ainda urinam na cama aos cinco anos, cinco por cento aos dez anos e um por cento aos 15 anos. Ainda não sabemos exatamente porque a bexiga funciona de uma forma de dia e de outra à noite. Não existe uma medicação específica para este problema, que vai melhorando com o tempo através da maturação da bexiga. O que há hoje é a técnica de um alarme que apita quando a criança vai urinar. Mas isso não funciona muito porque a criança que urina na cama tem um sono muito pesado, então o alarme acorda a família toda menos a criança. Para que a criança supere essa fase é preciso motivação, e ela só chega depois dos sete ou oito anos. Antes dessa idade não adianta os pais fazerem nada porque a criança não se importa em urinar na cama – os maiores preocupados são os pais. Existem alguns remédios para o problema, mas se a criança parar de tomá-los o problema volta. Normalmente, a criança quer mostrar para os pais que está parando de urinar na cama. Então é importante que os pais mostrem satisfação, mas jamais estimulem demais ou punam a criança porque assim se criará o problema inverso: a criança deixará de urinar de uma vez por todas, o que é muito pior do que fazer na cama. Há casos em que a criança urina apenas uma vez por dia por causa da pressão dos pais.
Sotaque Brasileiro - Quais as anomalias renais mais comuns em crianças?
Salle - O bloqueio do ureter, canal que liga os rins à bexiga, é bastante comum. Outra anomalia é o refluxo. Existe uma válvula na bexiga que impede que a urina volte aos rins. Quando esta válvula não funciona direito acontece o chamado refluxo. Se o refluxo ocorrer em grau muito elevado, resultará em infecção urinária. Por isso, crianças que têm infecção urinária devem sempre ser levadas ao médico para que se determine o que está causando o problema.
Sotaque Brasileiro - Qual é o tratamento usado quando essas anomalias ocorrem?
Salle - Quando ocorre o bloqueio do rim é preciso recorrer à cirurgia. Já no caso do refluxo, a tendência é que o problema vá melhorando espontaneamente. Se mesmo com o uso de antibióticos as infecções persistirem, será necessário uma correção cirúrgica. Pouco invasiva, a correção é feita através de uma injeção para fazer a válvula funcionar. Recorre-se à cirurgia aberta apenas em último caso.
Sotaque Brasileiro - O senhor dá aula na divisão de urologia da Universidade de Toronto. Com base nessa experiência, como o senhor analisa a qualidade das escolas brasileiras de medicina em relação aos padrões internacionais?
Salle - Hoje no Brasil existem muitas faculdades de medicina com corpo docente despreparado. Faculdades de medicina são abertas de uma maneira anárquica por todo o país, mais por questões políticas do que por necessidades médicas. Formar mais médicos não significa dar bom atendimento à população. Aumentar o número de médicos é uma maneira barata mas ineficaz de resolver o problema da saúde no Brasil. O ideal é criar melhores condições nos hospitais e nas faculdades de medicina para elevar a qualidade do ensino, criando uma estrutura mais organizada. Existem muitos médicos no Brasil e a maioria se concentra nas capitais. Eles não têm muita experiência porque não atendem muitos pacientes. O médico aprende com a própria experiência, através da quantidade de patologias que vê. O bom médico é aquele que viu o problema várias vezes.
Sotaque Brasileiro - Então falta muito para o Brasil se equiparar ao padrão canadense?
Salle - Sim, falta muito, pois o Canadá tem um sistema de saúde exemplar. Em todo o país, existem clínicas de atendimento primário e depois secundário. O sistema vai avaliando os pacientes até chegar ao médico mais especializado. Este sistema funciona muito bem. No Brasil, no entanto, não existe mercado para clínico geral. Muitos especialistas fazem coisas que a gente não faz aqui, pois faltam pacientes. Outra diferença importante: aqui não existe medicina privada. É como se todos fôssemos do Inamps. Pobres ou ricos, todos os cidadãos têm os mesmos direitos. No Brasil, o atendimento pelo Inamps é de baixo padrão e os hospitais são mal equipados. A quantidade de recursos que o governo brasileiro destina à saúde pública é mínima se comparada ao que ocorre no Canadá.
Sotaque Brasileiro - O senhor é um grande incentivador da formação de bons médicos no Brasil e está sempre promovendo a vinda de estagiários para o The Hospital for Sick Children.
Salle - Quando me mudei para o Canadá fiquei chateado porque o Brasil investiu muito em mim e eu poderia ter ficado lá e ajudado mais. Senti uma certa culpa. Com o passar do tempo, me dei conta de que ajudo muito mais o Brasil estando aqui do que lá, pois quando trabalhava em hospitais brasileiros vinham poucas pessoas estagiar comigo e o hospital não tinha um número de pacientes suficiente para facilitar o aprendizado. No Canadá, promovo não só a vinda de estudantes brasileiros mas também a realização de cursos. Também faço cirurgias no Brasil. No Canadá, ensino pelo menos dez vezes mais do que quando estava no Brasil. Em termos de atuação na formação de médicos brasileiros, fiz muito mais saindo do que ficando no Brasil.
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