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25 anos de luta contra a AIDS
Por: Lucas Bonanno | Sotaque Brasileiro, Numero 13, Outono 2006
A doença já matou 25 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, cresce a incidência de casos entre as mulheres
"Médicos diagnosticaram entre homossexuais masculinos 41 casos de uma forma rara e com freqüência rapidamente fatal de câncer. Oito das vítimas morreram em menos de 24 meses após o diagnóstico, em Nova York e na Califórnia. As causas são desconhecidas e até o momento não há evidências de contágio.”
Na verdade, o trecho acima não se refere a um raro tipo de câncer, mas sim à maneira como as primeiras informações sobre a Aids, doença oriunda da África e que, segundo pesquisadores, se espalhou na América do Norte através do comissário de bordo canadense Gaetan Dugas, o “paciente zero”.
O texto publicado no jornal norte-americano New York Times e veiculado no Brasil pelo Jornal do Brasil em 30 de maio de 1982 revela a falta de informação que se tinha a respeito da síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids), descoberta há 25 anos.
Ao longo desses anos, o acesso às informações se ampliou e hoje não se fala mais em grupos de risco, mas em populações vulneráveis. A doença provocada pelo vírus HIV – que era erroneamente chamada de “câncer Gay” por atingir principalmente os homossexuais – se tornou uma pandemia sem perfil específico.
De acordo com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), cerca de 25 milhões de pessoas já morreram de Aids em todo o mundo; e a estimativa é de que 42 milhões de pessoas sejam portadoras do vírus no planeta. O continente mais atingido é o africano com cerca de 30 milhões de casos. Índia e África do Sul lideram a lista dos países no ranking de casos da doença: as duas nações têm mais de cinco milhões de portadores, cada uma. No Brasil, a estimativa é de 600 mil e no Canadá, 59 mil.
Segundo Liviana Calzavara, vice-diretora do departamento de estudos sobre HIV da Universidade de Toronto, 89 por cento dos infectados que vivem no Canadá estão nas províncias de Ontário, Quebec e Colúmbia Britânica, sendo que os imigrantes, principalmente os de origem africana, estão entre os mais vulneráveis à infecção do HIV no país. “Não há solução para se acabar com a Aids. Temos que entender os valores e os costumes de cada população e atuar de maneira preventiva”, disse Calzavara.
Assim como as descobertas sobre os meios de contágio, as conquistas científicas no combate à doença também cresceram muito nas últimas décadas. Hoje, apesar de não haver cura para a Aids, há tratamento à base de coquetéis anti-retrovirais e vários estudos em fases intermediárias de pesquisa, entre eles a criação de um germicida – gel que seria utilizado pelas mulheres como maneira preventiva –, e até vacinas terapêuticas e preventivas.
Brasil é exemplo a ser seguido, diz Bill Clinton
Pesquisas científicas sobre a epidemia e perspectivas futuras na luta contra a doença foram discutidos na 16a Conferência Internacional de Aids, realizada em Toronto de 13 a 18 de agosto, no Metro Toronto Convention Centre. É a segunda vez que o Canadá sedia a conferência mundial; em 1996, o evento aconteceu em Vancouver. Sob o tema Time to Deliver, o encontro – que teve cerca de 25 mil participantes – foi o maior já realizado em todo o mundo sobre a Aids. “É tempo de cumprir as promessas políticas e financeiras feitas nos últimos anos”, disse um dos organizadores, Mark Wainberg, explicando a temática da conferência.
Entre os convidados ilustres do encontro internacional destacam-se o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, a princesa da Noruega, Mette-Marit, o ator Richard Gere, o dono da Microsoft, Bill Gates, e sua esposa, Melinda. Na conferência, Bill Clinton defendeu o acesso universal ao tratamento anti-retroviral e foi muito aplaudido ao citar o Brasil como exemplo a ser seguido. “Todos os brasileiros, os pobres, os que vivem na Amazônia recebem medicamentos contra a Aids”, disse.
A ausência do primeiro ministro canadense, Stephen Harper, no evento causou polêmica. Organizadores da conferência chegaram a acusá-lo de não estar preocupado com o combate à Aids no Canadá. A assessoria de Harper disse que ele estava com a agenda cheia durante o encontro, por isso não pôde comparecer.
Do Brasil, representantes do Ministério da Saúde, do movimento social, de universidades e da comunidade científica participaram da conferência. Os assuntos apresentados pelos brasileiros incluem desde pesquisas de vacinas anti-HIV e outras tecnologias de prevenção e medicamentos até acesso universal a anti-retrovirais e a participação da sociedade civil na luta contra a doença.
A diretora do Programa Nacional de DST/Aids, Mariângela Simão, participou da conferência e concluiu que o evento foi um importante espaço de diálogo e de cooperação. “A conferência é uma grande oportunidade de identificar problemas e buscar soluções por meio de uma agenda comum”, explicou. Para divulgar as ações desenvolvidas pelo Brasil na área de HIV e Aids, foram distribuídos pelo governo e por organizações da sociedade civil kits de campanhas publicitárias, charges de humor, preservativos, revistas, camisetas, CDs e broches do laço vermelho.
Américo Nunes Neto, soropositivo e presidente do Fórum de ONG/ Aids do Estado de São Paulo, também compareceu à conferência em Toronto. “É uma oportunidade única de conhecer novas e diferentes estratégias de combater a Aids”, ressaltou.
Uma equipe de jornalistas brasileiros da Agência de Notícias da Aids, de São Paulo, cobriu o evento, enviando ao Brasil reportagens e boletins diários. “Além do nosso site www.agenciaaids.com.br, fornecemos informações ao SBT, Rede Mulher, Bandnews FM, Rádio Transamérica e ao site da MTV”, disse a diretora executiva da agência, Roseli Tardelli.
A 16a Conferência Internacional de Aids recebeu inscrições de 12.888 trabalhos, dos quais 4.565 foram selecionados. Mais de CAD$ 2 milhões foram investidos nas pesquisas científicas apresentadas na conferência.
Retrato da doença no Brasil
A epidemia de Aids no Brasil está num processo de estabilização. Desde a identificação do primeiro caso, em 1980, até junho de 2005 foram notificados cerca de 371 mil casos da doença. A tendência à estabilização da incidência da Aids é observada apenas entre os homens; a doença está crescendo entre as mulheres.
No país, a doença vem atingindo indivíduos com menor escolaridade, principalmente mulheres. Embora as informações sobre raça e cor só passaram a ser registradas a partir de 2001, é interessante observar que, entre 2001 e 2004, mais de 60 por cento dos casos de Aids masculinos foram registrados em homens brancos. Já entre as mulheres, observa-se redução na proporção de casos entre as de cor branca e um aumento de 25 por cento na proporção de casos nas de cor parda.
No Brasil, todas as 177 mil pessoas que necessitam de tratamento anti-retroviral têm direito ao tratamento e acesso gratuito ao remédios. Os medicamentos são distribuídos nos postos do Sistema Único de Saúde (SUS).
INFOGRAFICO
Título: 40 milhões de pessoas vivem com o vírus HIV/ Aids
Fonte: Boletim de 2003 da Unaids
LEGENDAS
Foto: Mariângela
Crédito: Magda Fernanda
Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de DST/Aids: Conferência Internacional de Aids é uma oportunidade de buscar soluções
Foto: Richard Gere
Crédito: Lise Beaudry/ IAS
O ator e ativista Richard Gere na cerimônia de abertura da16a Conferência Internacional de Aids
Foto: Vigília
Crédito: Aids 2006
Vigília no centro de Toronto marcou o último dia da conferência
Foto: vestido
Crédito: Aids 2006
Participante da conferência exibe vestido feito com preservativos
Foto: Bill Clinton
Crédito: Lise Beaudry/ IAS
Bill Clinton, ao lado de Bill Gates (esq.), elogiou a iniciativa brasileira de acesso gratuito ao tratamento anti-retroviral
Foto: ativistas
Crédito: Aids 2006
Milhares de ativistas marcharam em Toronto pelo acesso ao tratamento da Aids
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