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Uma viagem ao mundo das letras
Por: Juliana Kiyomura Moreno, de São Paulo| Sotaque Brasileiro, Numero 13, Outono 2006

museu da lingua portuguesa

tentador dizer que não existe o Português. Há línguas em Português.” É com o depoimento do escritor José Saramago que o visitante se depara ao participar de uma incrível viagem pelo nosso idioma no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo. Inaugurado em  março, o museu é o único do gênero no mundo e entrou no circuito cultural da cidade. Orçado em R$ 37 milhões, o projeto do museu foi coordenado pela Fundação Roberto Marinho e pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, com investimentos da iniciativa pública e privada.

África, Ásia e América estão reunidas não apenas pelo idioma, mas por costumes que transcenderam fronteiras. “O visitante se emociona observando a história da nossa língua”, diz Jarbas Mantovanini, um dos coordenadores do projeto. “E o mais interessante é a descoberta de que ele (o visitante) também é o autor dessa língua.” Uma descoberta feita através de uma viagem sensorial que inclui filmes, audição de textos e muita tecnologia e interatividade.

Ao entrar no museu, o público tem a sensação de voltar no tempo. Era ali que, no início do século 20, funcionavam os escritórios da antiga companhia ferroviária. Parcialmente destruído por um incêndio em 1946, o prédio foi reconstruído na década de 50.

Toda a área foi restaurada e revitalizada. O projeto arquitetônico leva a assinatura de Paulo e Pedro Mendes da Rocha, pai e filho que pela primeira vez trabalham juntos. A museografia é do americano Ralph Appelbaum, que tem em seu currículo o Museu do Holocausto, em Washington, e a Sala de Fósseis do Museu de História Natural, em Nova York.

No saguão, entre dois elevadores panorâmicos, o visitante se depara com a Árvore de Palavras, uma escultura de 16 metros de altura criada pelo designer Rafic Farah. Nas raízes, há palavras de seis mil anos provenientes do indo-europeu, ancestral longínquo do português. A instalação é acompanhada pelo som de um mantra criado por Arnaldo Antunes. A música brinca com os termos “língua” e “palavra” em vários idiomas. A proposta da instalação e do mantra é criar um ritual de passagem para o mundo da linguagem.

Ao entrar na Grande Galeria, o visitante se depara com uma espécie de mural gigante em movimento. O telão de 106 metros de comprimento  propicia ao visitante a sensação de estar viajando em um trem através da projeção simultânea de 11 filmes que mostram a língua portuguesa no cotidiano, na música, culinária, religiões, festas, Carnaval e futebol.

Um espaço de todos

A proposta do museu é oferecer um espaço para todas as gentes e palavras. “Aqui serão bem-vindos tanto intelectuais quanto aqueles mais simples que, por local de nascimento ou por irreverência, adotam sotaques e gírias”, esclarece a socióloga Isa Grinspun Ferraz. “A língua é democrática e um patrimônio dinâmico. E isso está perfeitamente compatível com a virtualidade e a interatividade que caracterizam o museu.”

E é neste espaço de todos que o visitante encontra depoimentos de falantes do português das mais variadas regiões. Um deles é o do escritor moçambicano Nelson Saúte: “A minha língua materna é o português, embora o idioma original da minha mãe seja o ronga. Já o dialeto do meu pai é o pitonga, e este eu falo e entendo”.

Serviço:

O Museu da Língua Portuguesa fica na Estação da Luz, sem número, no Centro de São Paulo. Aberto de terça-feira a domingo, das 10 às 18h. O ingresso custa R$ 4,00.

É possível fazer uma visita virtual ao museu no site www.estacaodaluz.org.br.

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