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Brasileiros na Suíça
Por: Deborah Biermann | Sotaque Brasileiro, Número 14, Inverno 2006
Na Suíça, uma em cada cinco pessoas é estrangeira; mas isto não significa que haja uma integração completa.
Encravada nos Alpes europeus, chamada de “poço artesiano da Europa” por causa de suas ricas fontes de água potável, famosa por seu chocolate e repleta de contradições histórico-econômicas, a Suíça é um complexo mosaico. O país possui 7,4 milhões de habitantes, dos quais 21,5 por cento são estrangeiros. Isto significa que uma em cada cinco pessoas numa rua suíça é estrangeira. Engana-se, no entanto, quem acha que nesta sociedade tão diversificada não exista xenofobia nem rejeição do desconhecido.
Os brasileiros fazem parte desta porcentagem. As pessoas trocam o Brasil pela Suíça por diversas razões, mas o motivo mais comum continua sendo o casamento binacional. De acordo com fontes oficiais, há 45 mil brasileiros residindo no país, dos quais 4.357 são brasileiras e 582 são brasileiros casados com suíços. O tamanho da população verde-amarela na Suíça, estima-se, ultrapassa essa estatística porque o código civil prevê a naturalização automática (porém optativa) do estrangeiro casado com suíço.
Mesmo de posse do famoso passaporte vermelho, o contexto nem sempre muda para o brasileiro na Suíça. O aprendizado da língua não é subsidiado pelo governo e, mesmo que haja cursos acessíveis, grande parte dos brasileiros no país vem de camadas sociais menos privilegiadas, o que torna a assimilação de um novo idioma complicada. Sem contar que um curso de línguas requer recursos financeiros nem sempre disponíveis. A isto se acrescenta a diversidade da língua local: são nada menos que quatro idiomas oficiais – alemão, francês, italiano e reto-romano – e diversos dialetos regionais. Línguas completamente diferentes do alemão de Goethe ensinado nos cursos de idioma.
Assim, resta ao migrante brasileiro ocupar posições profissionais menos favorecidas, nas quais a escolaridade é sempre secundária: restaurantes, serviços de limpeza em bancos e escolas, ou empregos em supermercados e lojas. Nesses setores, o salário mínimo é de cerca de $ 2,400, valor insuficiente, na Suíça, para sustentar uma família com dois filhos.
Diplomas brasileiros não são reconhecidos
Os diplomas e certificados de conclusão de cursos concluídos no Brasil quase nunca são reconhecidos na Suíça. Por conta disso, a pedagoga Danielle Jeanrenaud, cansada de enfrentar barreiras lingüísticas e profissionais, resolveu abrir seu próprio negócio: uma escola brasileira com cursos de supletivo – um projeto piloto na Europa. “Apesar de fazer algo que me agrada, a recompensa financeira sempre demora a chegar”, diz a pedagoga.
O problema do reconhecimento de diplomas e certificados é grave. Além de ter que bancar caras traduções, os brasileiros têm ainda que solicitar o reconhecimento às autoridades educacionais suíças e pagar taxas de até $ 350. Rosália Liepecki, enfermeira com dez anos de carreira no Brasil, enfrentou todo esse tortuoso processo para ingressar no mercado de trabalho. A enfermeira conseguiu que a sua formação fosse reconhecida pela Cruz Vermelha Suíça mas, por causa de seu modesto conhecimento da língua, levou um bom tempo até que ela conseguisse o posto almejado. Rosália reconhece que a sua conquista se deve, em grande parte, ao fato de que ela não tem filhos, podendo assim se dedicar inteiramente a sua meta profissional.
Criar filhos na Suíça é outro ponto crítico. O país possui um sistema deficitário de creches e escolas infantis. A grande maioria das creches é particular ou recebe baixos subsídios do governo. Via de regra, as crianças só entram no sistema educacional por volta dos 4 anos de idade. Antes disto, as opções são as raras creches municipais, cujas filas de espera duram de 2 a 3 anos, ou as caras creches particulares.
Outro desafio para os pais são as longas férias escolares. São quase três meses e meio de férias por ano. Que mãe tem emprego com tantas folgas para poder ficar com os filhos?
Maria Cecília Fischer-Silva sabe o que isto significa. A vida da funcionária de um órgão diplomático virou uma maratona quando ela se tornou mãe. “Tive que sincronizar as férias do meu filho com as do meu marido, de parentes vindos do Brasil e de amigas. No final das contas, você tira folga só para poder organizar as férias dos filhos”, diz. A imprensa européia costuma dizer que a Suíça está muito atrasada em matéria de política de família: foram rejeitados vários referendos que garantiam um seguro-maternidade mais eficiente do que o atual, que prevê apenas três meses de licença e um de férias.
Na ala masculina também há muita gente descontente. O brasileiro Josias Gäwiller dos Santos chegou à Suíça há 22 anos e depois de muitos trabalhos “de bico” e um regresso ao Brasil que não deu certo, ele resolveu deixar de aborrecer-se e hoje cuida da casa e dos filhos enquanto a esposa suíça garante o sustento da família. Felizmente, as oportunidades para os homens migrantes está mudando. Hoje, há muitos brasileiros integrando-se à sociedade, estudando e encontrando trabalho.
A Suíça é isto: chocolate, esqui, relógios, gerânios. Mas também é festa junina, carnaval, escola de supletivo brasileira, portais brasileiros na internet, vereadores e prefeitas brasileiras, lojas, cabeleireiros, joalheiros, professores, vendedoras, farmacêuticas, faxineiras, televisão brasileira, grupos de brasileiros, tradutores. Uma gama sem fim de serviços que diminuem os 10 mil quilômetros de distância da terrinha e trazem o nosso país para mais perto dos brasileiros na Suíça.
Fique por dentro
- A Suíça não faz parte da Comunidade Européia, portanto a moeda do país não é o Euro, mas sim o franco suíço.
- Além de uma infinidade de dialetos regionais, o país tem nada menos que quatro idiomas oficiais: alemão, francês, italiano e reto-romano. As línguas mais usadas são o alemão e o francês.
- Menor do que o Estado de São Paulo, a nação é dividida em 26 cantões.
- É possível atravessar a Suíça de norte a sul em menos de quatro horas. Levam-se 45 minutos para se passar de uma altitude de 500 para 2 mil metros acima do nível do mar.
A união faz a força
Quatrocentas pessoas participaram no dia 28 de outubro, em Berna, do Terceiro Encontro Nacional de Brasileiros na Suíça. No encontro, grupos de brasileiros da Suíça e de outros países europeus discutiram a criação de um conselho para representar e lutar pelos interesses da comunidade brasileira no país. Para saber mais sobre a iniciativa, visite o site www.encontro-brasil.ch.
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