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Entrevista: Marcelo Veiga
Por: Fabiana Neves | Sotaque Brasileiro, Numero 14, Inverno 2006
Veiga fala com paixão sobre seu trabalho em regiões em que o mercúrio mata garimpeiros e suas famílias. Para o pesquisador, os maiores problemas ambientais não são gerados pelas indústrias, mas sim pela miséria. A pobreza, diz Veiga, está destruindo o planeta.
Formado em engenharia metalúrgica pela PUC do Rio de Janeiro, Marcello Veiga é professor de processamento mineral e meio ambiente na Universidade de British Colúmbia, em Vancouver, e coordena um projeto pioneiro das Nações Unidas que busca alternativas para a contaminação ambiental e de saúde por mercúrio em garimpos de seis países, entre eles o Brasil.
Sotaque Brasileiro - Como foi o seu começo de carreira no Brasil?
Marcello Veiga – Trabalhei no Cetem, Centro de Tecnologia Mineral vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia brasileiro, e fiz mestrado em geoquímica ambiental na Universidade Federal Fluminense. Era uma área nova, sobre a qual pouco se falava em 1978. Todos os professores eram estrangeiros e o curso foi espetacular. Isso me abriu o horizonte em termos de área ambiental, mas pude aplicar muito pouco do que aprendi, pois o Cetem – assim como várias empresas de mineração brasileiras – não fazia nada relacionado ao meio-ambiente naquela época.
Sotaque Brasileiro - Quando se desligou do Cetem?
Veiga - Saí do Cetem em 1984 e fui para uma subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce, onde trabalhei com elaboração de planos estratégicos e tive a oportunidade de conhecer vários tipos de depósitos minerais. Em 1986, os empregos estavam em alta e fui convidado para ser gerente de uma grande empresa de consultoria em engenharia, a Paulo Abib Engenharia, em São Paulo. Lá, fiz muita coisa, desde sintetizar pastilhas de clorar piscina até comprar garimpos de ouro. Foi uma época de ouro: um grupo de engenheiros pensando e fazendo coisas do outro mundo. Conseguimos até dar lucro, coisa que uma gerência de pesquisa não faz; foi quando me senti confiante para começar minha própria empresa de engenharia.
Sotaque Brasileiro - Como surgiu a oportunidade de trabalhar no Canadá?
Veiga - Em 1990, soube que um empresário paulista havia investido US$ 1 milhão em uma mina de ouro no Canadá e estava enfrentando problemas com o uso de mercúrio – minha área de trabalho. Vim para Vancouver cinco vezes e em uma destas viagens me encantei com a tal de inteligência artificial. Como minha esposa tinha intenção de fazer o doutorado no Canadá, nos mudamos para cá em 1991 e eu fui fazer doutorado na Universidade de British Colúmbia, em inteligência artificial aplicada a garimpos.
Sotaque Brasileiro - Depois que terminou o doutorado na UBC, o senhor voltou para o Brasil, mas acabou retornando para Vancouver. Por quê?
Veiga - Naquela época, a moeda brasileira estava igual ao dólar americano e a vida no Brasil era mais cara que no Canadá, sem falar na violência que estava aumentando. Minha esposa e eu resolvemos voltar para o Canadá. Fui pulando de uma empresa para outra, até que no final de 1996 fui convocado pela Onudi (Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial) para uma missão no Suriname e na Guiana. Já havia vivido três meses na Venezuela, em 1995, trabalhando para a ONU em programas relacionados ao problema do mercúrio em garimpos de ouro.
Sotaque Brasileiro - O senhor coordena um projeto apoiado pela Onudi para a redução da poluição pelo mercúrio usado nas extrações minerais. Como surgiu a oportunidade de liderar o projeto?
Veiga - Em julho de 2002, a Onudi me convidou para ir a Viena ser engenheiro do Projeto Mercúrio Global, que avalia a contaminação ambiental e de saúde em seis países: Brasil, Indonésia, Laos, Sudão, Tanzânia e Zimbábue. Viajei e aprendi muito, mas não me dei bem com o meu chefe em Viena, sede da Onudi, e acabei voltando para lecionar na UBC, em 2004. No ano seguinte, fui convidado pela Onudi para gerenciar o projeto, desta vez envolvendo meus estudantes da UBC. O projeto começou a decolar e hoje coordeno 40 pessoas. Estamos instalando Unidades Transportáveis de Demonstração nos países que participam do projeto para educar os garimpeiros e suas famílias.
Sotaque Brasileiro - Qual a dimensão da poluição de mercúrio em áreas de mineração de ouro em pequena escala?
Veiga – Trata-se de um problema crônico. Estima-se que existam de dez a 15 milhões de garimpeiros (dos quais 4,5 milhões são mulheres e um milhão são crianças) envolvidos nesta atividade. Cada garimpeiro tem uma família de no mínimo 5 pessoas – na Tanzânia são 9. O setor envolve ainda uma grande quantidade de fornecedores de equipamentos, comida, bebidas, combustível, de forma que mais de cem milhões de pessoas vivem desta economia informal. Muitas delas estão se contaminado com vapores de mercúrio, pois os garimpeiros queimam o amálgama de ouro com 40 por cento de mercúrio na cozinha ou na frente da família. Já vi pessoas morrendo ou ficando cegas por causa disto e crianças de apenas 4 anos com teores altíssimos de mercúrio na urina. Os governos não estão preparados para lidar com o problema. De certa forma, os governos ignoram estas pessoas pois garimpeiros não são exemplos de pagadores de impostos nem de votantes. As populações rurais de todo o mundo pagam um alto preço pelo desprezo dos governantes.
Sotaque Brasileiro - De onde vem a sua preocupação com o meio ambiente e recursos minerais?
Veiga - Vem de ver in loco algo que as Nações Unidas revelaram em 1987, no relatório Brundtland: a pobreza está destruindo este planeta. Os maiores problemas ambientais não vêm das indústrias, vêm da pobreza. Não vou discutir as implicações políticas de um indivíduo ser pobre e o outro rico. Claro que existem fatores políticos e sociais nisto, mas me refiro apenas às conseqüências da pobreza que são a contaminação ambiental e a proliferação de doenças facilmente controláveis. Esta realidade na África ainda é mais chocante. Lá, o garimpo é uma ilha de prosperidade em um mar de pobreza. Por dia, enquanto um fazendeiro ganha US$ 1, um garimpeiro de ouro faz facilmente de US$ 3 a US$ 15. Esta disparidade acaba gerando um outro problema: a proliferação de doenças através da prostituição. Na região em que trabalho no Zimbábue, 75 por cento dos garimpeiros têm HIV - na faixa de 30 a 40 anos o índice de casos salta para 82 por cento.
Sotaque Brasileiro - É aí que o projeto ambiental abarca a questão da saúde nos garimpos.
Veiga - Falar de poluição de mercúrio para alguém que tem HIV não faz sentido, por isso em nosso processo de educação falamos de assuntos envolvendo os garimpeiros e a comunidade. Nosso lema é “Mais ouro, menos mercúrio e mais saúde”. Para termos a atenção dos garimpeiros, temos que mostrar que podemos oferecer meios de tirar mais ouro do que os adotados por eles. Mostramos equipamentos simples, que os próprios garimpeiros podem fabricar para concentrar ouro e destilar o mercúrio dos amálgamas de maneira mais segura. Fizemos uma retorta (equipamento para destilar e reciclar mercúrio) de cuias de cozinha. Tem sido um sucesso. A presença permanente do nosso pessoal no campo cria laços com os garimpeiros e suas comunidades, e reforça a idéia de que eles têm que criar raízes, formar uma comunidade e diversificar a economia, pois mineração não é sustentável. Esta foi a história dos EUA e do Canadá, países que cresceram às custas dos desbravadores que encontraram ouro aqui no Oeste. A história dos garimpos na Amazônia e em outras áreas rurais em países em desenvolvimento não será diferente.
Sotaque Brasileiro - Segundo professores e alunos da UBC, o senhor é um dos melhores educadores da universidade. Lecionar era algo que o senhor sempre buscou?
Veiga - Nunca havia pensado na possibilidade de ser professor nem de fazer doutorado. Foram oportunidades que surgiram na minha vida. Jamais deixei o bonde passar duas vezes, sempre embarquei na primeira viagem. Havia 40 candidatos para duas posições no Departamento de Engenharia de Minas da UBC, eu achei que não iria emplacar. Fiquei entre os candidatos selecionados e quando me pediram para dar uma palestra, falei sobre um monte de coisas que fiz na minha vida. Isso impressionou a banca de selecionadores, e me tornei professor da UBC em dezembro de 1997.
Sotaque Brasileiro - O que gostaria de dizer aos brasileiros que, como o senhor, estão morando fora do Brasil?
Veiga - Temos que mudar essa mentalidade individualista do brasileiro e ser mais solidários, a exemplo de outras comunidades como a chinesa, portuguesa, italiana e indiana. Temos o péssimo defeito de nos isolar. Parodiando o escritor Otto Lara Rezende, que criticou a arrogância mineira, eu sempre repito que devemos eliminar a idéia de que o “brasileiro só é solidário do câncer”, isto é, quando a coisa não tem mais jeito. Acho que devemos cultivar a humildade, assim as oportunidades vêm mais facilmente. Como vieram para mim.
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