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Entrevista: Paul Stern
Presidente do Canadian International Auto Show
Por: Ana Paula Moratori | Sotaque Brasileiro, Número 15, Primavera 2007
Há 35 anos, Paul Stern saiu do bairro paulistano de Higienópolis para tentar a sorte nas terras gélidas do Canadá. Hoje, ele é proprietário da concessionária Toronto Chrysler e está há quatro anos à frente de um dos maiores eventos automobilísticos do país, o Canadian International Auto Show. A edição deste ano da feira aconteceu de 16 a 25 de fevereiro, em Toronto, e reuniu mais de 150 expositores no Rogers Centre e no Metro Toronto Convention Centre. Nesta entrevista, Paul Stern fala das barreiras e conquistas durante sua trajetória nos negócios. Para ele, integrar-se à cultura canadense é fundamental para quem quer vencer neste país.
Sotaque Brasileiro - Por que o Canadá?
Paul Stern - Vim com o objetivo de estudar inglês. Meus pais me deram a opção de ficar no Brasil, ir para os Estados Unidos ou vir para cá. Era a época da Guerra do Vietnã e, se eu fosse para os Estados Unidos, correria o risco de ter que me alistar. Eu não queria abrir mão de estudar inglês. O sonho americano era uma tendência muito forte na minha geração. Então, preferi vir para o Canadá, onde os riscos eram menores. Gostei tanto que estou aqui até hoje.
Sotaque Brasileiro - Como foi o início da sua carreira?
Paul Stern - Depois de me formar em química orgânica pela Universidade de Toronto, fui trabalhar na Procter & Gamble. Logo descobri que o meu forte era marketing, e não química, e decidi deixar a empresa para fazer meus próprios negócios. Com 28 anos, comecei a me dedicar ao que realmente gostava: carros.
Sotaque Brasileiro - Como surgiu a idéia de abrir uma concessionária da Chrysler?
Paul Stern - Tive meu primeiro contato com carros em 1979, quando fui vendedor da Ford. Em 1985, adquiri uma importadora japonesa de automóveis e, em seguida, a Toronto Chrysler. Minha visão sobre negócios mudou por conta dos ataques de 11 de setembro de 2001, quando fiquei horas no aeroporto de Londres sem poder voltar para casa. Enquanto estava lá, tive tempo de reavaliar minha vida. Vendo aquela tragédia toda, decidi que queria relaxar, viver mais e melhor. Vendi quase todos os meus negócios. A Toronto Chrysler ficou entre os poucos que restaram.
Sotaque Brasileiro - O senhor mudou depois de viver 35 anos em outro país?
Paul Stern - O Canadá é um país difícil, o frio está não só na temperatura mas nas pessoas também. Vejo isso se refletir até nos brasileiros que vêm para cá. No início, continuam sendo os mesmos mas logo adquirem o jeito canadense de ser. Eu mesmo acho que me tornei uma pessoa um pouco mais dura.
Sotaque Brasileiro - O sucesso que o senhor obteve nos negócios foi, de alguma forma, influenciado por sua família?
Paul Stern - Nunca dependi dos meus pais aqui. Quando entrei na faculdade, trabalhava em dois empregos. No inverno, era funcionário da Hudson’s Bay Company e no verão era jardineiro no campus universitário. Morava em república de estudantes. Tudo que conquistei foi graças a muito trabalho honesto e dedicação.
Sotaque Brasileiro - Quais foram as maiores dificuldades que o senhor enfrentou no Canadá?
Paul Stern - O inverno, com certeza, foi uma delas. Na época em que vim para cá as temperaturas eram muito mais baixas. A comida também foi um desafio. Não havia tanta variedade como há hoje e, como eu estava acostumado à comidinha da mamãe, foi difícil me adaptar ao fast food. Um dos principais obstáculos foram os relacionamentos. Foi difícil me integrar, ter namoradas. Saí do Brasil numa fase em que tinha muitos amigos, muitas coisas acontecendo. No meu prédio, por exemplo, sempre estavam Wanderléia e Erasmo Carlos compondo e tocando. Daí cheguei aqui e onde estavam a música e as brasileiras? Tive que me adaptar ao sistema.
Sotaque Brasileiro - Quais as principais diferenças entre Brasil e Canadá?
Paul Stern - Os negócios no Canadá dão certo porque o sistema não é corrupto. A estabilidade política é muito forte. Há ainda a questão da segurança. Aqui, andamos nas ruas sem medo. Não posso dizer que o Brasil é melhor ou pior porque existem os dois lados da moeda. No Brasil, há uma coisa que não vemos aqui: o calor humano e a paixão pelo país e pela cultura.
Sotaque Brasileiro - Como é ser presidente do 2007 Canadian International Auto Show, maior feira aberta ao consumidor no Canadá?
Paul Stern - A feira dá muito trabalho mas também é gratificante. Amo todo esse trabalho principalmente porque, assim, posso mostrar aos meus filhos que se você quer ter alguma coisa, se quer crescer, é preciso trabalhar e concentrar todos os seus esforços para atingir esta meta.
Sotaque Brasileiro - O senhor pretende voltar para o Brasil?
Paul Stern - Estou aqui há 35 anos, mas meu coração nunca deixou de ser brasileiro. Vou fazer de tudo para me viver no Brasil quando me aposentar.
Sotaque Brasileiro - Qual mensagem o senhor daria para a comunidade brasileira?
Paul Stern - Se você quer algo, é preciso lutar por isso. Muitas pessoas vêm para o Canadá com o intuito de juntar dinheiro – o que não acho errado – mas, antigamente, as coisas eram muito mais fáceis do que hoje. Agora, quem tem a oportunidade de vir para cá deveria se dedicar mais a estudar a língua e a se aperfeiçoar em alguma coisa. Para mim, o que fez a diferença foram os cursos que fiz e a insistência em aprender inglês. Me adaptei ao país. O Canadá é muito diferente do Brasil. É preciso se adaptar a este país e isso inclui se adaptar à cultura, à língua, às pessoas. Ficar preso à comunidade brasileira não ajuda muito nessa adaptação. Assim como no Brasil, você encontra aqui pessoas boas e pessoas ruins. O importante é seguir em frente, buscar seu sonho e nunca desistir dele.
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