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Chega de saudade
Por: Ana Paula Moratori | Sotaque Brasileiro, Número 15, Primavera 2007

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Viola dribla a saudade da família reunindo-se com conterrâneos

 

juliana

Juliana tenta lidar com o vazio deixado pela perda de seu cachorro

 

monica

Mônica Nogueira, psicoterapeuta: é preciso aprender a viver com o que se tem

A saudade é um sentimento do coração que vem da sensibilidade e não da razão, já dizia Dom Duarte, rei de Portugal no século 15. Ela chega de mansinho e causa uma sensação de aperto no coração que nos leva a revirar fotografias, reler cartas e relembrar situações. Todo ser humano já sentiu, sente e ainda sentirá saudade, a sétima palavra mais difícil de traduzir, segundo pesquisa realizada por tradutores britânicos.

De origem latina (solitas, solitatis), a palavra saudade é definida pelo dicionário Houaiss como um "sentimento melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados como um bem desejável."

Em Toronto, onde grande parte da população é imigrante, é fácil encontrar pessoas que lidam freqüentemente com essa emoção. São dias, meses ou anos longe da terra natal. Mônica Nogueira, psicoterapeuta brasileira radicada em Toronto, acredita que as diferenças culturais podem desencadear a sensação de saudade. "Os valores em geral estão ligados a um código, que é entendido dentro de um contexto. Quando se sai desse contexto e se entra em outro, muitas vezes a pessoa acredita que não é entendida, que perdeu seu valor. Então, se retrai em um saudosismo, cria um mundo ideal em que ela seria entendida e valorizada. Passa, assim, a rejeitar qualquer possibilidade de integração com a nova cultura", explica. Em muitos casos, diz a psicoterapeita, o imigrante entra em depressão porque este mundo idealizado é inalcançável.

A melhor solução quando não há como estar perto daquilo que se deseja é encontrar meios para aliviar o vazio e a frustração causados pela saudade. A albanesa Viola Kavaja, 30 anos, desembarcou no Canadá em 2001. Com seu processo de imigração em andamento, a garçonete não pode deixar o país. Ao todo, já somam-se cinco anos sem visitar a família, que vive na Albânia. "Quando sinto muita falta dos meus pais, procuro me reunir com meu esposo e meus sogros que vivem aqui. Não é exatamente a mesma coisa, mas como eles vêm da mesma cultura que eu, consigo me sentir um pouco em casa", diz.

A saudade não está ligada apenas a pessoas. Lugares, cheiros, sabores e também animais desencadeiam essa emoção. A jornalista Juliana Cetrim, de 24 anos, viveu uma dessas experiências no ano passado, quando perdeu seu cachorro de estimação depois de 17 anos de convivência. "Ganhei o Sheik quando fiz 7 anos. Sinto uma saudade enorme dele. Até hoje quando chego em casa olho para o chão para ver onde ele esta. Sei que ele não esta mais ali, mas é algo inconsciente, automático. A pior sensação é a de não saber o que fazer com o espaço vazio que fica dentro de você. E tentar lidar com essa ausência que, por mais que a gente tente fingir que já passou, sabe que ainda existe."

Saudável, a saudade deve ser sentida, vivida e chorada. É um sentimento tão intenso que foi o ingrediente principal de belos poemas, músicas, peças de teatro e filmes. Em doses exageradas, no entanto, a saudade pode causar bloqueios na vida das pessoas, impedindo-as de viver novas experiências. "Algumas pessoas se prendem ao passado e lamentam a vida atual. É como se a felicidade ficasse estagnada naquele ponto, naquele lugar distante, impedindo que a pessoa se ligue plenamente à vida real", alerta a psicoterapeuta Mônica Nogueira. É preciso aprender a viver com aquilo que se tem em mão. "Você só possui certas cartas e tem que montar suas estratégias em cima delas."

saudade. S.f. 1. sentimento melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo, de afastamento de um lugar ou de uma coisa, ou à ausência de certas experiências e determinados prazeres já vividos e considerados como um bem desejável.

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