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50 Anos de imigração portuguesa no Canadá
Por: Sara Silva| Sotaque Brasileiro, Número 1, Verão 2003
"Chorava muito nos dois primeiros dias. Hoje sei que valeu a pena. Para fazer essa reflexão temos de olhar aquela luzinha lá no fim do túnel e atravessar pela escuridão", Antonio Santos e Souza, 77 anos, pioneiro português que esteve no primeiro navio a desembarcar em Toronto."

Sr. Antonio, um dos primeiros imigrantes portugueses no Canadá. |
M aio de 1953. A bordo do navio Saturnia, jovens portugueses deixavam o cais em Lisboa com o coração apertado e muitos sonhos guardados na bagagem. Os cinco dias de travessia pelo Oceano Atlântico até a “terra nova” pareciam intermináveis. Um deles começou a viagem chorando. Antonio Santos e Sousa, hoje com 77 anos, havia deixado mulher e um filho de apenas dois anos na Vila de Nazaré. Não sabia o que o esperava na América.
Aos 27 anos, Antonio resolveu ir embora não por questões econômicas, como a maioria de seus compatriotas, mas por ideologia. Na verdade, ele era uma exceção, um comerciante de sucesso em uma época em que a economia estava estagnada em Portugal, sob o poderio do ditador Antonio de Oliveira Salazar. Naquele início dos anos 50, a imigração para o Brasil ainda era uma válvula de escape para os trabalhadores portugueses. Mas como o Canadá precisava de mão de obra, especialmente para a agricultura, a rota agora era desviada para o Norte.
E foi para o Norte, que seu Antônio rumou, contrariando toda a família. Largou tudo, e ao lado do amigo Evangelino, embarcou no Saturnia.
Os dois passaram os primeiros dias chorando no quarto. Após cinco dias de viagem, o navio atracava em Halifax, na costa leste do Canadá, naquele 13 de maio de 1953. A data ia entrar para a história. Chegava ao país os primeiros 85 imigrantes portugueses oficiais, 67 vindos do continente e 18 das Ilhas dos Açores.
Depois de passar por Montreal, seu Antonio chegou a Toronto no feriado de Victoria’s Day. Foi hospedado em um hotel caro, na Bloor com Bay Streets, com diária de $3. Trazia uma pequena fortuna de $500 no bolso.
O próximo navio - Duas semanas depois, o navio Nea Hellas chegava a Halifax com um grupo ainda maior de imigrantes portugueses. Agora eram 102 homens, vindos da Ilha da Madeira. Rui Ribeiro era um deles. Em um anúncio de jornal, convocando trabalhadores, viu a chance de melhorar de vida, afinal, sempre quis se aventurar em outro país para ganhar dinheiro. Era casado há apenas oito meses na época e deixava a esposa Belmira grávida.
Rui, como a maioria dos primeiros imigrantes, foi recrutado para à agricultura. Aqui chegando, começou a trabalhar na plantação de tabaco em London, com outros dois colegas portugueses. Menos de duas semanas depois foi levado, sozinho, para 75 milhas dali na fazenda do genro do primeiro patrão. Era tão longe que a vila mais próxima ficava a 5 milhas. Sem entender nada em inglês, a comunicação era por sinais.
Os anos seguintes - Era preciso ser perseverante para enfrentar aqueles primeiros anos de trabalho árduo e muita solidão. Antonio quis começar do zero, literalmente. Decidiu seguir para Montreal para se juntar a outro grupo de portugueses. Dos $500 que carregava, enviou mais de $400 para mulher em Portugal, comprou o bilhete do trem e $20 ficaram guardados no bolso. Foram para comprar a cerveja mais cara de sua vida. Ele conta: “Nunca gostei muito de cerveja, mas resolvi beber uma no trem. Paguei $0.25 e tomei devagar. Depois, pedi outra e deixei os $19.75 no balcão. Ninguém tinha me obrigado a vir até aqui. Vim porque quis. Então, queria começar do zero, sem um centavo no bolso”.
E começou do zero várias vezes, porque mandava todo o dinheiro para a mulher. Dona Maria Antonia e o filho José Julio chegaram um ano depois. Na época, a rotina de seu Antonio era quebrar pedras com britadeira. O corpo inteiro tremia e tinha que disfarçar para a mulher não perceber e chorar de preocupação.
Já Rui Ribeiro decidiu ir para Niagara Falls. Arrumou quarto e trabalho. Primeiro, começou na construção de um tunnel. Ganhava um bom salário para a época: $1.25 a hora. Foi quando conseguiu juntar um dinheirinho para trazer a mulher e a filha Eva, que ele ainda não conhecia.
Quando chegou, Dona Belmira encontrou o marido magro. “Ele só comia batata e grão-de-bico porque era só o que ele sabia fazer”, conta. Terminada a construção do túnel, Rui foi trabalhar na plantação de frutas e o salário caiu para menos da metade, $0.50 a hora. A família decidiu, então, seguir para Toronto.
A estabilidade - Tanto trabalho fez com que boa parte dos portugueses conseguisse alcançar estabilidade financeira e muitos abriram seus próprios negócios, como é o caso de seu Antonio e seu Rui. Antonio prosperou muito na época em que trabalhou como ajudante de cozinha no campo militar de Labrador. Ao mesmo tempo, vendia roupas aos trabalhadores e militares. Em nove meses, juntou $7 mil. O comerciante atingiu o sucesso na terra nova. Abriu o primeiro restaurante português de Toronto e a primeira companhia de importação, que no início vendia $7 mil por dia e após 13 anos, chegou a $ 1,5 milhão por dia. “Temos que olhar aquela luzinha lá no fim do túnel e atravessar pela escuridão”, filosofa. Já seu Rui montou uma transportadora com um cunhado e quando vendeu seu negócio, após 15 anos, tinha 11 caminhões.
Os portugueses e o Canadá - Antonio e Rui são dois exemplos do início da formação da comunidade portuguesa no Canadá, hoje concentrada nas grandes cidades do país. De acordo com o professor universitário Fernando Nunes, doutor em Educação de Minorias e vice-presidente do Congresso Nacional Luso-Canadiano, os portugueses não se identificaram com o trabalho no campo e decidiram ir para a cidade trabalhar na construção. “A intenção deles na época não era imigrar realmente, mas ganhar um dinheiro e voltar para Portugal. Por isso, foram para a construção, o que garantia dinheiro rápido”, explica. E acabaram ficando. Nos anos 60 e 70, as leis de imigração facilitavam a vinda de familiares e amigos pelas Cartas de Chamada, afinal o país ainda enfrentava falta de mão de obra trabalhadora. O pico da imigração aconteceu em meados dos anos 70, quando cerca de 18 mil portugueses vieram para cá em apenas um ano.
Embora tivessem encontrado aqui dificuldades com o clima, a língua e níveis educacionais diferentes, os portugueses também tiveram acesso a um nível de vida melhor. Hoje, a comunidade é formada por uma população de cerca de 400 mil pessoas em todo o país. A de maior importância esta estabelecida em Toronto, onde vivem aproximadamente 200 mil luso-canadenses. Outros 50 mil vivem em Montreal, a maioria de origem açoriana.
O professor Fernando Nunes explica que a comunidade portuguesa hoje é uma comunidade de trabalhadores que atua nos setores do comércio, construção, limpeza e manufatura, e continua prosperando, já que os níveis de pobreza são relativamente baixos, parecidos com os níveis canadenses. Mas os baixos níveis educacionais continuam sendo um problema na comunidade, que pertence a um dos três ou quatro grupos com maior índice de desistência escolar entre os jovens. Além disso, apenas 6% tem alguma formação pós-secundária. “Há muito mais profissionais qualificados hoje, sem dúvida, mas não cresce na mesma porcentagem que a população. Porém, é uma comunidade extremamente trabalhadora e com grande sentido de tradição e família”, conclui.
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