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Brasileiros em Toronto
Por: Teka Silveira | Sotaque Brasileiro, Numero 1, Verão 2003
Alguém desavisado que chegue no quadrilátero da Dundas, Dufferin, Ossington e College, na região oeste de Toronto, poderá supreender-se ao ouvir de repente um “ôrra, meu!” ou “uai!!!”, ou ainda “é merrmo, meu irmão?”, ou talvez um “mas, bá, tchê!” ou quem sabe “ó, xente!”.
Se não fosse pelo clima ou arquitetura você certamente se esqueceria que está no Canadá. Afinal nas lojas, nas calçadas, nos bancos, nos telefones públicos e no ônibus é possivel ouvir o mais puro idioma português. Uma surpresa!!!
Porém, logo depois do impacto inicial, acaba-se acostumando, aqui e ali, a ouvir o som familiar dos diversos sotaques que identificam as várias regiões brasileiras, num verdadeiro minúsculo Brasil instalado nesta grande metrópole da América do Norte.
Embora o Canadá não seja um dos destinos mais visados pelos brasileiros, já deixamos aqui a nossa marca. (veja quadro)
Deixar o país de origem não é uma decisão nada fácil. Abandonar o conforto do lar e ir ao encontro do desconhecido exige coragem e muita, muita disposição para reiniciar a vida com novos objetivos. Temos de lidar, pelo menos temporariamente, com as referências do Brasil e da nova terra, simultaneamente.
Maria do Socorro Carlos Vidal, em sua tese universitária de doutorado em Ciências Sociais, apresentada em 2000 pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ressalta que “a não obrigatoriedade de um visto prévio e a dificuldade de acesso imposta pelos Estados Unidos” fez com que muitos brasileiros pensassem no Canadá como um destino viável.
As boas notícias que chegavam sobre as vantagens de se viver no Canadá, serviram de estímulo àqueles que, de alguma forma, já pensavam em deixar o Brasil. “Eu trabalhava numa empresa que recebia muitos estrangeiros em Minas Gerais. Era secretária do setor de pesquisa e tinha que fazer contatos com profissionais do exterior. Paralelamente, um amigo meu veio estudar na região de Quebec e me falou de coisas que me incentivaram”, relata a administradora de empresas Ângela Mesquita, proprietária de uma das principais casas de câmbio brasileiras em Toronto.
A historiadora carioca Rosana Barbosa Nunes vive no Canadá desde 1986. De acordo com suas pesquisas, “fatores internos do nosso país, tais como a desilusão com os sucessivos planos econômicos e o aumento dos níveis de violência urbana fizeram com que de forma crescente, nos fins dos anos 80 e início da década de 90, houvesse uma procura pelo Canadá. No primeiro momento, houve uma predominância de grupos onde se destacava a classe media. Depois, veio uma grande leva de pessoas com menor grau de instrução.”
Uma transferência de país requer, na maioria das vezes, um bom planejamento e definição de metas a médio e longo prazos. Muitas famílias brasileiras que estão no Canadá vieram em busca do que chamamos de “qualidade de vida”. Este termo badalado e amplo engloba desde níveis de educação até segurança pública, aquisição de bens materiais, acesso à cultura e tantos outros itens.
O casal baiano Jaime Santos e Liviane Souza veio, há quarto anos com a expectativa de conhecer novos lugares e pessoas, além de querer viver num país eficiente, justo e organizado. Hoje ele é dono de uma pequena empresa de construção. “Pretendo investir mais e aumentar minha empresa, pois o ramo está crescendo muito devido à escassez de moradias em Toronto”, ressalta Jaime. Liviane concluirá em junho o curso em General Business pelo Seneca College e o mercado mostra-se promissor também para ela. “Não nos arrependemos!”, diz Liviane.
Ainda nesse universo de quase 10 mil brasileiros aqui residents, há aqueles que desembarcaram pelos caminhos do coração, como é o exemplo do paraense Márcio Mendes, que conhecendo a canadense Lang Liu, se mudou para Toronto. Hoje, ele é um verdadeiro divulgador da arte e da cultura verde-amarela, pois é professor de capoeira juntamente com a esposa. “Já havia pensado na ideia de viver fora do país. Quando cheguei trabalhava em outros tipos de serviço. A capoeira era meu part-time”, lembra Márcio.
Mesmo com um bom nível educacional, tanto Jaime quanto Márcio não conseguiram, no início, emprego nas suas respectivas áreas e tiveram que se dedicar aos setores que oferecem oportunidades para a maioria dos brasileiros que chegam ao Canadá: construção civil, a limpeza e os restaurants.
Os canadenses de um modo geral têm um carinho muito especial pelo Brasil. Isto foi observado nas Copas do Mundo de 1994 e 2002, para citar nossos dois últimos grandes títulos no futebol. As comemorações no reduto onde a comunidade está mais centralizada em Toronto deixaram uma marca verde-amarela indelével na cidade e são lembradas com alegria por todos, até hoje.
Seja num passeio pela Queen Street West – rua famosa pela sua diversidade, antiquarios e lojas de design de todas as tendências – em um sofisticado café ou em lojas de vestuário podemos ouvir música popular brasileira.
Até mesmo em vitrines do Dufferin Mall, importante centro de compras e de lazer da zona oeste da cidade, os jeans e o estilo da lingerie brasileira são destaques. As sucessivas iniciativas na promoção de festas, eventos, comércio de produtos e encontros comunitários, além da presença de uma mídia impressa com linguagem brasileira são amostras de como os valores culturais, os elos sociais e a memória das raízes são importantes no dia a dia de cada um. A moda, diversos produtos como café, bombons, farinha de mandioca, sucos, a comida dos restaurants com típica culinária brasileira, os CDs de todas as tendências musicais e as novelas trazem para perto das pessoas todo um imaginário que lembra a terra natal.
Até o clima de maior espetáculo a céu aberto do mundo, o Carnaval, tem vez por aqui. Na primeira metade do ano, sempre acontecem dois grandes eventos carnavalescos que mobilizam não só a comunidade brasileira, com convidados especiais, como também a alta roda da sociedade canadense. Espetáculos absolutamente inimagináveis para quem está no Brasil. Na cidade de Toronto existem até duas escolas de samba. E, pasmem! Comandadas por dois canadenses. A maioria dos músicos é estrangeira.
Alan Hetherington, dirigente de uma das escolas de samba em Toronto comenta que “a riqueza do espírito da cultura brasileira é forte e atraente não só para canadenses como também para todo mundo. Há muito tempo que eu ouço que o brasileiro tem calor humano e o canadense é frio, mas não concordo. Eu acho que todo o ser humano tem esse calor... O dom do brasileiro é saber como inspirar esse espírito a se soltar. Apesar da dureza da vida cotidiana ele sabe olhar as coisas de um modo positivo. Nossa meta agora é montar uma equipe e fazer um desfile brasileiro na cidade, com fantasias e carros alegóricos”.
A maioria dos brasileiros que aqui reside, em um ou outro momento, se defronta com novas demandas e necessidades reais de vida. Trabalhos em geral nunca feitos no Brasil ou atividades não-qualificadas são o lugar-comum relatados por esses homens e mulheres, muitas vezes com diploma superior, vindos de grandes centros como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Dos chamados serviços braçais são tirados o sustento, a manutenção da família no Brasil (em muitos casos), a oportunidade de aprimorar um segundo ou terceito idioma, a chance de progresso no poder aquisitivo ou bagagem cultural.
A linguagem não-verbal do brasileiro, no entanto, expressa-se pelo empenho no trabalho; pela alegria e disposição com que se entrega aos eventos que tentam reproduzir o clima do nosso país; pela flexibilidade e criatividade com as quais resolve seu dia a dia e pela brasilidade inegável da sua maneira de viver.
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