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Entrevista: Embaixador Henrique Valle
O desafio de promover o Brasil
Por: Roberto Cardinalli | Sotaque Brasileiro, Número 1, Verão 2003

Embaixador do Brasil no Canada, Henrique Valle |
Oembaixador do Brasil no Canadá, o carioca Henrique Valle, é um apaixonado por futebol. Fluminense de coração, ele começou a carreira diplomática aos 22 anos. Depois de dedicar boa parte da vida em missão na ONU (Organização das Nações Unidas), Henrique Valle está completando quatro anos à frente da Embaixada Brasileira no Canadá. Durante quase duas horas de entrevista em sua sala na embaixada, em Ottawa, falou sobre sua atuação junto ao governo canadense, seus projetos para desenvolver a imagem do Brasil e para estreitar a relação entre os dois países.
Sotaque – Como está o relacionamento diplomático entre o novo governo brasileiro e o Canadá?
Henrique Valle – A avaliação é de que existe um marcante interesse da parte do Canadá pelo novo governo. Um exemplo importante que posso citar foi que em janeiro deste ano o ministro das Relações Exteriores do Canadá viajou ao Brasil e essa visita teve especial significado. Primeiro, porque foi no primeiro mês de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo, porque ele foi apenas ao Brasil. Issoé altamente positivo, já que quando ocorrem visitas ministeriais ou de alto nível é natural aproveitar-se para ir a dois ou três países diferentes. Foi um recado claro da prioridade que o Brasil representa no hemisfério.
Sotaque – Não houve certo receio quando a imprensa internacional chegou a publicar artigos alarmistas ainda na fase de transição de governo?
Henrique Valle – O que ficou claro é que a transição no Brasil foi muito mais suave do que as pessoas esperavam. Não houve rupturas, essencialmente houve continuidade. O presidente Lula deu mostras de muita visão ao escolher uma equipe técnica para os ministérios. Assim, a política econômica vem dando certo. É claro que ainda temos inflação, desemprego e fome. Mas são problemas históricos que não se resolvem de um dia para o outro ou com decretos. O
Canadá absorveu a transição desde o primeiro momento.
Sotaque – Tivemos esse ano no Canadá dois problemas na área da saúde que chamaram atenção da mídia internacional que foi a alta incidência de pacientes com SARS e o episódio da vaca louca. Como a Embaixada tratou essas questões?
Henrique Valle – Quando a SARS apareceu não sabíamos que rumo ia tomar. Mantive o governo brasileiro informado diariamente sobre a evolução da doença. Sei que vários brasileiros deixaram de vir não só a Toronto, mas também ao Canadá por causa da SARS. Apesar de o problema ser sério, tenho a impressão de que quando as pessoas estão distantes tendem a dar-lhe dimensão maior. Eu mesmo não deixei de ir a Toronto para cumprir minhas obrigações por causa da SARS. A expectativa é que a doença esteja controlada.
Sotaque – E sobre a vaca louca?
Henrique Valle – Sobre esse assunto é bom lembrar que, em fevereiro de 2001, tivemos que fazer um trabalho de recomposição das importações da carne brasileira pelo Canadá, porque houve uma restrição canadense ao consumo de carne do Brasil. A medida, naquela época, teve como base apenas uma suspeita em virtude de importações antigas brasileiras de gado europeu. Nunca tinha havido um caso no Brasil. A medida não se justificava. Tentamos negociar para que não fosse aplicada. Uma missão técnica foi ao Brasil apurar e constatou que não havia qualquer perigo. Foi
uma decisão, digamos, precipitada que gerou consequências sérias no relacionamento porque a opinião pública brasileira reagiu com veemência naépoca. Agora que apareceu um caso concreto aqui, os canadenses estão tomando todas as precauções. Alguns países, inclusive o Brasil, suspenderam a importação, com razão, porque há um caso concreto.
Sotaque – Como estão as relações comerciais Brasil e Canadá?
Henrique Valle – Existem investimentos canadenses no Brasil há mais de um século. Isso vem aumentando nos últimos anos. Quanto ao comércio, temos movimentado algo em torno de 2,5 bilhões de dólares canadenses por ano nos dois sentidos. Estamos exportando mais do que importando. A balança comercial tem crescido apesar de competir numa área difícil, porque 85% das exportações canadenses vão para os Estados Unidos. O resto do mundo, portanto, tem uma fatia
pequena para dividir.
Sotaque – Como encontrar caminhos para aumentar essa proporção?
Henrique Valle – O desafio é tentar inovar. Encontrar novas atividades no que diz respeito a promover o Brasil. Ainda existe desconhecimento e esse é o termo do que ocorre no Brasil e vice-versa. Procuramos afinidades e áreas não exploradas para tentarmos criar coisas novas.
Sotaque – Por exemplo?
Henrique Valle – Recentemente tivemos uma idéia que vai se tornar realidade em breve. A propostaé criar uma cadeira de estudos brasileiros no Canadá. Existem várias cadeiras de estudos brasileiros nos Estados Unidos mas, nenhuma aqui. No Brasil, existem vários centros canadenses financiados pelo governo disseminando o Canadá. O Brasil já passou do ponto de ter de se conformar em ficar dentro de uma cadeira mais ampla de estudos latino-americanos. Queremos uma individualidade na área acadêmica.
Sotaque – Como esse centro de estudos brasileiros no Canadá vai funcionar?
Henrique Valle – Será um centro de estudos sui generis que vai abranger mais de uma universidade porque há brasilianistas em várias instituições. As atividades serão concomitantes e sucessivas. Por intermédio de parcerias, o Brasil mandará gente para cá para ajudar a desenvolver o projeto. As universidades envolvidas até agora são as de York, Western Ontario, Calgary e UQAM.
Sotaque – Esse projeto se restringiria ao mundo acadêmico?
Henrique Valle – Pelo contrário. Para dar certo, esse tipo de cadeira não pode ser realizada nos moldes tradicionais de ensino. Não pode se limitar à área acadêmica. Tem de ser estudado o Brasil de hoje: a parte econômica e a parte olítica, entre outras coisas, para que quem frequente possa tirar benefício imediato, sobretudo os investidores.
Sotaque – Quando essa experiência será colocada em prática?
Henrique Valle – Os Ministérios das Relações Exteriores dos dois países já deram apoio institucional. Daqui a poucos meses já pode haver até uma cerimônia de lançamento. Já existem várias atividades acertadas como a vinda de professores brasileiros, seminários e palestras. Na área acadêmica será um enorme avanço; um instrumento de proximação muito grande. Enfim, uma troca de conheci-mento. A divulgação do Brasil é uma das nossas prioridades. Outra obra que me orgulho nessaárea é a divulgação de um CDROM produzido por nós (veja página 12) onde consta
todo o acervo da arquitetu-ra contemporânea nacional. Issoé o que queremos: promover o Brasil.
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