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Brasileiros em Vancouver
Por: Luciana Andrade| Sotaque Brasileiro, N'umero 2, Outono 2003
Sol, praia, céu azul, gente bonita e bronzeada, ruas lotadas, povo quente, batuque na beira do mar. Até parece que estamos falando sobre alguma praia do Brasil, certo? Errado. O foco é outro: Canadá. Ou melhor, a cidade de Vancouver no verão. Considerada um dos lugares mais bonitos do Canadá e do mundo, Vancouver têm infra-estrutura que não deixa a desejar a nenhuma cidade canadense, além de fatores climáticos e geográficos invejáveis. E é exatamente com sua beleza de cidade litorânea, contrastando com uma cordilheira decorada com neve, que ela foi considerada a segunda melhor cidade do mundo para se viver, empatada com Viena, na Áustria, e perdendo apenas para Zurique, na Suiça. O estudo foi feito pela empresa de consultoria americana Mercer Human Resource.
O sentimento de verão começa em meados de junho -apesar de iniciar oficialmente em julho- e, em alguns dias de julho e agosto, até o brasileiro mais acostumado com a estação sente muito calor. Durante esse período, os dias ficam mais longos, anoitecendo por volta das dez horas da noite. Nada pode ser mais fascinante do que assistir o pôr-do-sol na praia de English Bay. Lá é o point predileto entre turistas e moradores. No mês de setembro há dias em que o céu dá um espetáculo à parte: cores fortes como púrpura, vermelho e laranja, lembrando a famosa “Aurora Boreal” das terras geladas do norte do Canadá.
Mas engana-se quem acredita que Vancouver só rima com o verão. No inverno não faz tanto frio, comparado a outras cidades do Canadá, mas chove-se muito, quase diariamente. Não foi à toa que o carioca Marcelo Veiga criou o jornal Vanchuver, editado pela BCA (Brazilian Community Association). Falando em inverno, vale lembrar que Vancouver foi eleita sede dos XXI Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, superando os concorrentes Salzburgo, na Áustria, e a pouco popular Pyeongchang, na Coréia do Sul.
Calcula-se que menos de 1,4 mil brasileiros vivam em Vancouver. Esse número é bastante pequeno, principalmente se comparado com Toronto, onde quase seis mil brasileiros vivem oficialmente. Mesmo em número reduzido, a comunidade brasileira é unida em Vancouver. Nossa alegria típica e o nosso sotaque (esse sotaque que muitos brasileiros querem se livrar e que eles adoram!) são nossa marca registrada.
Rosana Ortega, de 30 anos, é uma dos brasileiros que vivem em Vancouver. No Brasil, ela trabalhava na área de Comércio Exterior de uma grande firma. Como o inglês era sua prioridade, inclusive para conseguir melhores oportunidades de trabalho, resolveu aceitar o desafio e largou o emprego estável para estudar no Canadá. Fez muitos trabalhos voluntários até surgir uma grande oportunidade. A vaga, de assistente de marketing, foi aberta pela própria escola onde ela estudava e onde, também, já havia se voluntariado. “Achava que tinha chances e fiz minha inscrição mas tinha muito medo de não rolar nada. E não é que eu estava enganada? Roloouuu!!!” diz Rosana cheia de entusiasmo. “Às vezes trabalhamos bastante na vida e a recompensa demora para vir, mas vem”, ensina. Atualmente, ela é coordenadora de Marketing e é a responsável pela América Latina. Está provando à escola que a contratação foi um bom investimento: desde o começo do ano ela já trouxe, apenas para a cidade de Vancouver, mais de 150 alunos.
Hoje em dia, se você não tem o inglês como segunda língua fica difícil encontrar um bom emprego no Brasil. Por esse motivo, muitos estudantes resolvem sair do país. Alguns vêm, gostam da cidade e decidem ficar. Outros ficam só mesmo para estudar por um determinado tempo e voltam para suas cidades de origem. Esse é o caso do estudante de administração de empresa, Augusto Mendonça, de 22 anos, que veio para estudar inglês por 6 meses. “Escolhi o curso de ESL mas, quando cheguei no final do meu terceiro mês, surgiu um concurso para uma bolsa de estudo no curso de Hotelaria. Participei, ganhei a bolsa e mudei um pouquinho meus planos”, lembra Augusto, que complementa: “mas não vejo a hora de voltar para o Brasil! Preciso terminar minha faculdade. Pode ser que um dia venha morar aqui, mas por enquanto estou morrendo de saudades do meu país”.
Todo mundo sabe que deixar o país de origem e começar tudo de novo não é fácil e não é qualquer pessoa que está preparada para isto. Alguns contam histórias de sucesso, como Wellington Silva, de 39 anos. “Eu era gerente de vendas de uma grande companhia no Brasil, a maior da América Latina. Não estava feliz e queria alguma coisa a mais, então resolvi vir ao Canadá para estudar inglês e trabalhar”, lembra Wellington. Hoje ele é proprietário de um restaurante de comidas brasileiras e de uma companhia de importação e exportação de produtos nacionais, em Vancouver.
Aliás, se bater saudade do tempero brasileiro e do sotaque português em Vancouver, um opção é caminhar por pela Comercial Drive, rua onde se concentram muitos restaurantes latinos, em downtown. Alguns Cafés, ou a praia de Kitslano, também são outras sugestões para quem quiser ouvir o idioma da terrinha.
Nas ruas, em festivais, ou mesmo dentro das academias, a Capoeira também já se faz presente. A luta conquistou a costa Oeste do Canadá, particularmente em Vancouver e Victoria. Que o diga Marco Antonio Silva, mais conhecido como Mestre Barrão, que saiu do Recife com toda a família em 1992, pronto para enfrentar a cidade de Vancouver. “Hoje eu consigo viver de capoeira, mas não sei se teria a mesma condição no Brasil”, diz o Mestre. Recentemente lançou um CD (com revista), que pode ser encontrado nas bancas de jornais em todo o Brasil.
Atuando na mesma área, o pernambucano Eclison de Jesus. Ele veio há quatorze anos com um grupo de capoeiristas para se apresentar num festival e nunca mais saiu. “Quando decidi ficar eu não tinha quase dinheiro, mas tinha o sonho de comprar uma casa para minha mãe, para que ela pudesse ter uma situação melhor do que a que tínhamos”, lembra Mestre Eclison. “Eu não só consegui comprar a casa, como também tenho minha mãe aqui comigo”, comemora com orgulho.
Não são todos que vêm para ficar mas, às vezes, estar aqui pode ter surgido de uma “brincadeira”. Este é o caso da Dona Fulvia Fadigas de Souza, de 82 anos, que já tinha dois filhos imigrantes. “Estudei em colégio Americano e já conhecia a cultura canadense, pois quase todo ano vinha visitá-los, mas nunca pensei seriamente em morar aqui”. Em uma de suas brincadeira, falou para sua filha mandar a tal carta de chamada, que ela iria para o Canadá. A filha não perdeu tempo. Resultado: Dona Fulvia já está aqui há mais de 20 anos. Considerada patrimônio da comunidade, a “avó”, como gosta de ser chamada, adora escrever. Ainda este ano estará lançando o seu livro, totalmente em inglês!
Já o engenheiro civil Marco Castro conheceu muitos países antes de escolher o Canadá. Saiu do Brasil, morou na cidade americana de São Francisco, e decidiu rodar o mundo. “Eu queria viajar durante um bom tempo e só depois decidir onde ficar. Comecei a pesquisar sobre o Canadá, Vancouver especificamente, e adorei a cidade. Vim para ficar em 1996”, diz Marco, que já viajou por mais de 30 países, tendo morado em quatro deles. Em Vancouver, ele trabalhou no Consulado Brasileiro, até ser fechado. Depois disso abriu a Provisa, empresa de ajuda à brasileiros, portugueses e a comunidade canadense em geral com serviços consulares, e vem atuando com sucesso no ramo. Marco, que também foi presidente da Associação Brasileira da Columbia Britânica (BCA), fala com sabedoria de quem viveu intensamente: “As cidades mais maravilhosas do mundo são Rio de Janeiro e Maceió, Vancouver e Insbruck, na Áustria. Mas para viver com qualidade de vida, Vancouver está na frente”.
Aventura, ousadia e muito otimismo. São essas as palavras dos brasileiros que vivem em Vancouver. Pessoas que buscam qualidade de vida sem perder muito do cenário verde-e-amarelo. E no Canadá, plagiando o poeta “quem não gosta de Vancouver, bom sujeito não é....”
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