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Cinema brasileiro: volta aos velhos tempos
Por: Eduardo Souza Lima| Sotaque Brasileiro, Numero 2, Outono 2003

Ocinema brasileiro pode fechar este ano de 2003 ocupando 18% - ou 20%, como querem os mais otimistas - do mercado nacional. Estamos longe da taxa de ocupação de 40% dos tempos áureos da Embrafilme - entre 1977 e 1981, quando chegaram a ser produzidos 140 longas-metragens por ano no país. Mas estes números podem ser considerados ilusórios, levando-se em conta que foram puxados por três ou quatro produções, todas ligadas à Globo Filmes, o braço cinematográfico das Organizações Globo, que garante a elas estratégias de lançamento e de marketing agressivas, dignas dos blockbusters made in USA e/ou às grandes produtoras americanas. Ainda assim, são números bastante animadores, perto dos zero-vírgula-alguma-coisa-por-cento do início dos anos 90, quando o ex-presidente Fernando Collor de Melo extinguiu a Embrafilme e fez do cinema nacional Judas em Sábado de Aleluia.

Num pronunciamento feito na noite de encerramento do Festival de Gramado, em agosto, o ministro da cultura Gilberto Gil lembrou que nos últimos dois anos, foram produzidos no país 75 filmes, mas apenas pouco mais de 30 chegaram ao circuito. Não descartou a possibilidade de haver uma "intervenção federal" na distribuição de cinema nacional. Mas o próprio ministro reconhece que a conquista do mercado interno não é garantia para a sobrevivência do cinema brasileiro, já que pouquíssimas produções conseguem se pagar apenas nele. Daí a importância de se investir na conquista de outros mercados.

O prestígio do cinema brasileiro no exterior sobrevive de espasmos - "O cangaceiro", "O pagador de promessas", o Cinema Novo, "Pixote", "Central do Brasil", "Cidade de Deus" e olhe lá. Os festivais internacionais são fundamentais para que ele se consolide. E para isso não bastam oscars ou palmas, ursos e leões de ouro; é preciso uma boa estratégia de vendas. Há dez anos o Grupo Novo de Cinema está cuidando disso, associado à Brazilian Film Commission e à Agência de Promoção de Exportação Brasil. De lá para cá, mais de 60 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens, já foram vendidos para distribuidores de cinema e TVs de países como os Estados Unidos, a França, a Suécia, a Alemanha, o Japão, a Inglaterra, a China e o próprio Canadá.

Este ano, o programa National Cinema do Festival de Toronto focou o Brasil com sete títulos que dão uma boa mostra da nova safra brasileira: "Ônibus 174" ("Bus 174"), de José Padilha e Felipe Lacerda; "Carandiru", de Hector Babenco; "Deus é brasileiro" ("God is Brazilian"), de Cacá Diegues; "O caminho das nuvens" ("The middle of the world"), de Vicente Amorim; "Narradores de Javé" ("The storytellers"), de Eliane Caffé; "A festa de Margarette", ("Margarette's feast"), de Renato Falcão; e "O homem do ano" ("The man of the year"), de José Henrique Fonseca - sendo que os três últimos também estarão no estande de vendas do Grupo Novo e o último já foi vendido para a Inglaterra, onde estreou no fim do mês passado em cinco salas. Em comum, quase todos pretendem uma investigação da realidade brasileira deste início de século, tema mais recorrente do cinema nacional nos últimos anos. Dois deles, "Carandiru" e "Deus é brasileiro", bateram a marca do milhão de espectadores no Brasil, sendo que o segundo já ultrapassou a dos quatro milhões. E quatro deles, "Ônibus 174", "O caminho das nuvens", "A festa de Margarette" e "O homem do ano", são de diretores estreantes.

No pronunciamento que fez em Gramado, Gilberto Gil disse que a meta do governo Lula é a de cem filmes produzidos por ano até o fim de seu mandato. Disse também que o objetivo maior é que "o cinema brasileiro tenha no século XXI a mesma hegemonia que o cinema americano teve no século XX". É claro que há um quê de exagero tropicalista na declaração, mas temos ainda 97 anos e alguns meses para chegar lá. E ao menos parece que o esboço do roteiro desta aventura começou a ser escrito.

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