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Entrevista: Stéphane Larue
Consul do Canadá em São Paulo

Por: Murilo Guimarães | Sotaque Brasileiro, Numero 2, Outono 2003

Stéphane Larue conversa sobre o trânsito de brasileiros para o Canadá e sobre ações do consulado canadense no Brasil.

Há 14 anos no serviço diplomático, o cônsul canadense Stéphane Larue já passou por postos como Hong Kong, Guatemala e Londres. Ele também foi um dos integrantes de uma missão especial para refugiados durante a guerra do Kosovo. Natural de Noranda, na província de Quebec, Larue mora em São Paulo desde 2001 e não hesita em dizer que essa é a experiência mais especial de sua carreira. Durante a entrevista no Consulado Geral de São Paulo, o cônsul falou sobre os programas para atrair imigrantes, os profissionais mais requisitados pelo Canadá, o caso dos brasileiros deportados, e o que fazer para realizar o sonho de se tornar canadense, inclusive entre os que já vivem no país de forma irregular.

Sotaque – Como tem evoluído nos últimos anos os pedidos de brasileiros para vistos de imigração no Canadá?

Stéphane Larue – Lentamente. No entanto, em nossos programas, o consulado vem promovendo mais a imigração. Acredito que o brasileiro está mais bem informado do que no passado sobre as reais possibilidades oferecidas pelo Canadá. Apesar disso, ainda temos muito trabalho pela frente. A mentalidade brasileira ainda está muito ligada à idéia de que tudo de melhor que ele procura ao mudar de país, ele irá encontrar nos Estados Unidos. E essa realidade não é totalmente verdadeira.

Sotaque – Então o senhor acredita que para o brasileiro é melhor viver no Canadá do que nos Estados Unidos?

Stéphane Larue – Os EUA, apesar de serem um alvo maior para os brasileiros que desejam buscar uma nova vida no exterior, não têm uma atitude tão positiva quanto a canadense sobre a entrada de estrangeiros que querem se estabelecer no país. Por outro lado, o Canadá oferece, através do programa de imigração ativo, boas oportunidades para brasileiros.

Sotaque – O que o consulado canadense vem desenvolvendo para divulgar essa realidade?

Stéphane Larue – No site do consulado há bastante informação sobre o processo de imigração, todavia, este processo não é ativo. Portanto, o que estamos fazendo agora é organizar, diversas vezes ao ano, sessões de informação com brasileiros que poderiam se qualificar tranqüilamente para o processo de imigração. Por exemplo, realizamos recentemente no próprio consulado uma sessão de informação na qual divulgamos quais são os critérios para evitar que as pessoas percam o seu tempo e depois não sejam qualificadas. As informações não são somente sobre o processo, mas também sobre o que ocorre quando elas estão no Canadá.

Sotaque – E como essa realidade canadense é mostrada ao brasileiro interessado em emigrar? Como ele sabe se o processo será uma perda de tempo?

Stéphane Larue – O principal objetivo do nosso trabalho é mostrar que o Canadá é uma opção interessante para aqueles que sonham em morar no exterior. Tomamos o cuidado de divulgar, inclusive através de depoimentos de brasileiros residentes no Canadá, os dois lados da imigração, os prós e também os contras. O importante é que a pessoa tenha dados suficientes para tomar uma decisão consciente. Nessas palestras, a pessoa aprende também sobre o critério de seleção, e fica sabendo, na hora, sobre suas reais chances de ter o pedido aprovado.

Sotaque – Essas sessões são realizadas somente no Consulado?

Stéphane Larue – Não. Fazemos esse mesmo trabalho em organizações profissionais ou instituições educacionais. Para ilustrar, foi feito recentemente, no Rio de Janeiro, um encontro com grupo de profissionais da área de Fisioterapia. Nessas reuniões em Universidades nós não nos limitamos a informar sobre o processo de imigração, mas também como poderiam trabalhar no Canadá. O consulado também conta com o serviço de especialistas voltados para a área de intercâmbio comercial e negócios em geral.

Sotaque – Em linhas gerais como é esse programa de atração das províncias canadenses?

Stéphane Larue – Os agentes das províncias fazem este trabalho em vários países do mundo, inclusive Brasil. Eles procuram identificar pessoas que queiram emigrar e que sejam, pelas suas qualificações e características, capazes de preencher os requisitos e as prioridades previstos na política de imigração. O objetivo é promover, divulgar os seus interesses na imigração e explicar as vantagens e possibilidades em cada uma delas. Esse programa gera todo um esquema de apoio aos interessados para que tenham uma visão, a mais clara possível, de suas perspectivas no Canadá.

Sotaque – Então um dos principais objetivos desses programas seria selecionar brasileiros que tivessem o perfil da política de imigração canadense? E qual seria esse perfil?

Stéphane Larue – Sim. Em geral, a política canadense fixa parâmetros como idade, nível educacional, experiência profissional e estudo anterior no Canadá, inclusive cursos de línguas. Esse processo obviamente permite também que o qualificado patrocine a ida de parentes, esposas e filhos.

Sotaque – E como são divulgados esses programas?

Stéphane Larue – Os workshops relativos as visitas dos agentes das províncias canadenses são divulgados através da imprensa, nos jornais de maior circulação do Brasil.

Sotaque - Qual área profissional é a mais valorizada pelo consulado?

Stéphane Larue - O critério de seleção vigente não valoriza, ou seja, não dá pontos pela ocupação do candidato como acontecia anteriormente. A intenção agora é apostar no capital humano, no conjunto de atributos que levariam um estrangeiro a se estabelecer economicamente com sucesso. No Brasil, a maioria das pessoas que emigra para o Canadá vem de setores como: tecnologia da informação, engenharia, saúde, finanças, marketing e gestão empresarial.

Sotaque – Como o Brasil se posiciona no ranking da imigração canadense?

Stéphane Larue – O número de brasileiros que emigram para o Canadá ainda é muito pequeno em relação às outras nacionalidades. Em 2002, os números representavam cerca de 1,5% dos vistos processados no hemisfério ocidental; e menos de 0,5% do total global. Statistics Canada apurou que existiam 9.710 brasileiros no país em 2001.

Sotaque – Em geral, quantos vistos o consulado canadense aprova por ano no Brasil e como eles se dividem?

Stéphane Larue – Os pedidos de visto têm crescido e a maior parte é o visto de turismo. Contamos com aproximadamente 30 mil pedidos de visto temporário, que inclui o de turismo, por ano. Nesse tipo de visto o prazo envolvido é de até seis meses e normalmente é definido no serviço de imigração do aeroporto. Em 2002 aprovamos pouco mais de 500 vistos para imigrantes. Vistos para estudantes, foram cerca de 5 mil, sendo que quase 3,5 mil para programas de seis meses ou menos. Vale lembrar que todos os vistos são centralizados no Consulado em São Paulo.

Sotaque – Como os vistos se distribuem por áreas no Brasil?

Stéphane Larue – Em geral, a maioria dos vistos são emitidos para residentes em São Paulo. Mas sabemos que São Paulo é pólo de atração no país e tem pessoas originárias de todo o Brasil. Quanto aos pedidos para imigração, a quantidade é bem menor e a sua distribuição é mais bem dividida. Apesar da maior parte estar também em São Paulo, temos pedidos de muitos outras regiões, como Norte e Nordeste, e podemos destacar, por exemplo, Belém, Recife e Fortaleza. No caso de estudantes, o estado de Minas Gerais, apesar de ser menor em número do que São Paulo, também é destaque.

Sotaque – Falando em estudantes, muitos jovens com esse tipo de visto desejam continuar no país e gostariam de regularizar sua situação. Como deve proceder alguém nesta situação?

Stéphane Larue – O certo é fazer isto fora do Canadá já que se trata de uma mudança de status. A pessoa nessa situação poderia fazer um pedido em um escritório como o de Buffalo, nos Estados Unidos, que lida com problemas dessa natureza. Contudo, o melhor seria que encaminhasse a solicitação através do Consulado Canadense no Brasil, porque temos mais familiaridade com os documentos brasileiros e com as atividades profissionais no país. O que muitas vezes facilita o processo é alterar a condição de visto de estudante para de imigrante. Sugiro que brasileiros nessa situação, entrem em contato com o Consulado em São Paulo e procuraremos ajudá-los.

Sotaque – Inclusive, muitos desses jovens procuram diversos tipos de trabalho, mesmo sabendo que a atividade é irregular, para obter recursos adicionais.

Stéphane Larue – Existem países que permitem o trabalho com o visto de estudante, como é o caso da Austrália. Mas no Canadá o estudante só pode trabalhar nos campus das Universidades. Em New Brunswick, no entanto, há um programa-piloto em uma Universidade que permite aos estudantes o acesso ao mercado de trabalho. Acredito que isto irá se estender por todo o país.

Sotaque – Recentemente, duas famílias brasileiras foram deportadas depois de anos vivendo no país. O assunto foi destaque na imprensa e na comunidade. Neste caso, o visto de Compaixão Humanitária não seria justo?

Stéphane Larue - A legislação de imigração prevê que toda pessoa estrangeira solicitada a deixar o Canadá tem direito de apresentar um recurso contrário a essa decisão. Toda ordem de remoção passa por vários níveis de julgamento. Para preservar e respeitar a privacidade das pessoas, o ministério não comenta sobre os detalhes de cada caso. Uma decisão de deportação é tomada com muita seriedade, levando sempre em consideração a proteção de residentes canadenses e o cumprimento das obrigações legais internacionais por parte do governo.

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