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Construção civil no Canadá. A força brasileira faz a diferença
Por: Rita Mercio | Sotaque Brasileiro, Número 3, Inverno 2003

florianopolis
Vítor Almeida, representante da Local 27 - Carpenters e Allied Worker's

Longe de querer esgotar o assunto, nossa edição de inverno traz aos leitores um pouco do mundo da construção civil no Canadá, segmento onde se encontra uma grande parte dos brasileiros que saem de nosso país em busca de melhoria financeira e qualidade de vida. Podemos classificar de "um mundo" porque a edificação de uma residência envolve centenas de profissionais, dezenas de empresas e contratos, com seus desdobramentos e infra-estrutura. Trazemos alguns relatos dos que aqui estão e que, com suas experiências, darão uma idéia do que é trabalhar na construção nesta nação do primeiro mundo, ainda jovem se comparada ao Brasil.

Relatos como de um artista que às vezes cria na imaginação seus ambientes miniaturizados enquanto utiliza a força de seus músculos na labuta do dia-a-dia. Assim o mineiro Fabio Theodoro, há 16 anos no Canadá, alterna a rotina dura e exigente, porém bem remunerada da atividade, com o prazer de inventar pequenos mundos que nos remetem à magia e à infância. O miniaturista Fabio, a quem muitos da comunidade brasileira de Toronto já conhece, passou por varias funções dentro da construção civil: foi briqueleiro, trabalhou nos blocos e hoje é labour, na qual esta trabalhando há três meses. Exerce várias atividades, uma vez que tem grande experiência na operação de máquinas. Já realizou empreitadas nas Bahamas e Estados Unidos e, permanecendo anos e anos no mesmo campo salienta "o que torna a construção um foco de interesse é a possibilidade de um ganho financeiro expressivo, ela paga bem e acaba prendendo a gente". Ele destaca ainda alguns aspectos não positivos que são encarados tais como relação interpessoal na base de gritos ou palavras agressivas, que aparecem muitas vezes pela diferença cultural entre os trabalhadores, o que acaba provocando sofrimento e estresse emocional. Além deste, o grande volume de peso para os braços, diariamente, acaba por gerar muito cansaço e desconforto físico. "As vezes você pensa que vai desmaiar. Aí, respira fundo e recomeça."

O novato Beto Zeferino está há apenas nove meses no Canadá e, após o periodo de adaptação, trabalha de segunda a sábado numa empresa de drywall. Cansado no final da jornada semanal, reclama que "gostaria de me dedicar mais ao estudo, aprender ingles..." mas, por enquanto, dedica-se com afinco somente à profissão, ficando na vontade o desejo de visitar museus, galerias de arte e frequentar ambientes recheados de cultura. O que trouxe Zeferino ao hemisfério norte? Após a morte violenta de um amigo em Santa Catarina, ele questionou-se e decidiu sair do Brasil. Sua perspectiva é de ficar no Canadá por uns dois anos, adquirir uma melhoria financeira e voltar. Estranha muito as formas de tratamento entre as pessoas no ambiente da construção, pois mesmo trabalhando em equipes pequenas, a desunião é flagrante.

Já para Vítor Almeida, representante da Local 27 - Carpenters e Allied Worker's, sindicato com mais de 100 anos de existência e cerca de 10 mil membros, fazer cumprir o que esté escrito nos contratos de trabalho, preservando o direito dos trabalhadores, é a luta principal da entidade "Nos levamos esses contratos até o fim, palavra por palavra", diz ele. Todos os setores da construção de uma casa por aqui são contratados separadamente. Os brasileiros vem destacando-se nas especialidades carpintaria (half e finish), drywall e brique, sendo que os donos de empresas, na sua maioria são italianos e portugueses. Existe a perspectiva, ainda segundo Almeida, de muito trabalho pela frente, pelo menos por mais uma década. Com semelhanças mínimas entre os métodos brasileiros e canadenses, ele ressalta que "estrutura, tempo e espaço", possivelmente sejam as maiores diferenças. Chegado no início dos anos 90 ao Canadá, considera-se afortunado por poder representar os trabalhadores que necessitam de alguma assistência. Depois de finalizar o nível secundário (high school), foi ajudar o pai na carpintaria, onde ficou cerca de sete anos. Quando a entidade sindical procurou um Business Agent/Organizer (este é seu cargo atual), Almeida candidatou-se e, após várias entrevistas e testes saiu vitorioso. "Além de oferecer milhares de empregos a pessoas que chegam em busca de trabalho e melhores condições de vida, o segmento da construção no Canadé é fundamental para o crescimento e desenvolvimento econômico do país."

Almeida é hoje um dos principais articuladores e apoiadores do movimento que pretende criar um centro de apoio aos brasileiros que aqui estão, principalmente aqueles que ainda não tem a situação de status legalizada no país. Para brasileiros que ainda estão por vir e para aqueles que não pertencem ao ramo é fundamental salientar que, mais do que construir cidades, bairros, condomínios ou casas, aqueles que dedicam-se à atividade da construção edificam mais do que projetos de engenharia. Acabam construindo seus sonhos e seus projetos de vida.

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