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Entrevista: Frank Alvarez
Por: Pedro Venceslau | Sotaque Brasileiro, Numero 3, Inverno 2003

"A comunidade brasileira só tem a ganhar se unir-se à portuguesa"

Em1967, quando a comunidade portuguesa no Canadá não chegava a duas centenas de pessoas e a brasileira praticamente não existia, o empresário lusitano Frank Alvarez desembarcou em Toronto para tentar a vida como imigrante. Trinta e seis anos depois, ele comanda um dos mais importantes conglomerados de comunicação em língua portuguesa da América do Norte: a CIRV, que engloba uma rádio com mais de nove horas de programação em português; um canal de televisão a cabo que trasmite novelas brasileiras; e um semanário, chamado “O Milénio”. Em entrevista à revista Sotaque, Alvarez contou como era Toronto nos anos 60, falou sobre sua trajetória até chegar à CIRV e pediu mais integração entre brasileiros e portugueses.

Sotaque – Como foi sua trajetória profissional no Canadá?  

Alvarez – Cheguei em 1967 e comecei a trabalhar na indústria hoteleira.  Em 1968, fui para a (rádio na) CHUM Radio, trabalhando como produtor responsável pela programação portuguesa por 12 anos. (Trabalhei 12 anos lá.) Depois, em 1970, fui para a a Global Television,  como porodutor português. Lá fiquei 11 anos. No fim desse período, comprei uma estação de rádio portuguesa. Não era antena livre. Era servida através do cabo, em serviço fechado. Foi assim durante quatro anos. Depois, fiz um pedido  de licença de uma estação multicultural de TV (rádio, TV está errado) e aqui estou nos últimos 17 anos.  (por 17 anos).

Sotaque – Como foi sua adaptação neste país?

Alvarez – Foi difícil. Em Portugal, como no Brasil,  nós temos um bom clima. Somos um país pequeno, um jardim à beira-mar. Nos anos 60, a comunidade portuguesa era muito pequena, a brasileira não chegava a uma dúzia. Naquela época, tudo era mais difícil, desde o clima até a própria mentalidade das pessoas. Com os anos isso foi melhorando. Hoje, Toronto é uma colcha-de-retalhos. Temos uma composição com as partes positivas de todas as comunidades étnicas. Tudo é mais fácil. Vivemos numa cidade multicultural, muito diferente de 36 anos atrás.

Sotaque – Quando o senhor sentiu que a comunidade brasileira começou a crescer no Canadá?

Alvarez -  Na última década. Acredito que temos hoje cerca de seis mil brasileiros na região de Ontário. Antes disso, o número era muito pequeno. O Canadá não tem um clima bom para receber brasileiros. A mentalidade, o estilo de vida, tudo é muito diferente. Acredito que a adaptação para brasileiros seja muito difícil no Canadá. Esse país é muito diferente do Brasil

Sotaque – Os brasileiros representam hoje um público cativo na sua programação, seja na rádio ou na TV?

Alvarez – Julgo que não. Temos um canal de TV em língua portuguesa que já existe há dois anos. Este ano, eu pensei que seria de grande interesse para a comunidade brasileira se eu comprasse os direitos de transmissão do campeonato brasileiro de futebol, evento que envolve equipes de todo o país. Trasmitimos futebol durante dois meses, até meados de outubro, quando tivemos que cancelar o contrato porque não houve o mínimo retorno da comunidade brasileira. Não diantou campanha publicitária na rádio, na TV ou no jornal. Não tivemos uma resposta positiva dos brasileiros. Já que para os portugueses o campeonato brasileiro não é muito conhecido, cancelamos o contrato. Enfim, eu não diria que participação dos brasileiros na nossa programação seja zero, mas é mínima. É  muito abaixo daquilo que seria de se esperar de uma comunidade que já tem os números que tem.

Sotaque – E as telenovelas?

Alvarez – Os portugueses gostam das telenovelas brasileiras. O Brasil faz as melhores telenovelas do mundo. Em Portugal, onde as novelas já passam há muitos anos, o povo está acostumado. As novelas são feitas com muito profissionalismo e cuidado, portanto o público adora. Mas, nem assim os brasileiros que vivem em Ontário têm dado uma resposta positiva de audiência, comparando com o retorno que essas novelas tiveram no mundo.

Sotaque- O senhor acha que não existe espaço, no Canadá, para uma TV exclusivamente brasileira?

Alvarez – Você pode tirar das minhas respostas as conclusões que bem entender. Nós demos todas as oportunidades para a comunidade brasileira, em Ontário, aderir à FPTV. Existe um programa semanal voltado para brasileiros e uma telenovela brasileira, que é “Xica da Silva”. Colocamos no ar o campeonato nacional. Oferecemos o que podíamos para ter a honra da participação brasileira em nossa programação. O que se pode oferecer mais?  Em termos de adesão, de envolvimento, nossa experiência com a comunidade brasileira não foi muito positiva.

Sotaque -  Que conselhos daria para os jornalistas brasileiros que estão chegando ao país?

Alvarez – Que contate as fontes brasileiras que estão aqui, seja na área do turismo ou no consulado, por exemplo. Eles podem dar melhores conselhos. Apesar de ter uma programação em português, não conheço os meandros da comunidade brasileira, conheço de forma superficial.

Sotaque – E para o novo imigrante, seja ele português ou brasileiro, qual a receita para conseguir se estabelecer e ter uma carreira de sucesso?

Alvarez – A receita do sucesso é fácil de aplicar e difícil de responder. Não sei se vou ter capacidade para responder essa pergunta. Eu julgo que a receita de sucesso é ter talento, qualidades de trabalho e  ser honesto. É logico que também precisa ter aquela pontinha de sorte para se impor e ter sucesso. Tem muita gente boa, competente, trabalhadora e honesta, que não alcança essa linha de sorte. Eu trabalho há mais de 40 anos e ainda não consegui totalmente minha independência econômica. Continuo a trabalhar 12 horas por dia, mais que qualquer empregado desta organização.

Sotaque -   Quais as dificuldades que o senhor encontrou no mercado canadense para consolidar sua empresa?

Alvarez – Tem sido uma luta constante. Tivemos um grande envolvimento comunitário e isso nos garantiu maior sucesso e impacto. Crescemos como uma rádio, uma TV e um jornal da comunidade portuguesa. Isso tudo é nosso, somos um veículo de participação e apoio à essa comunidade.

Sotaque -  E o mercado publicitário canadense?

Alvarez – Ainda é pequeno, mas existe um apoio. Gostaríamos que fosse maior a participação.

Sotaque – Qual a participação política da comunidade portuguesa no Canadá?

Alvarez – Precisamos ter mais políticos portugueses, mais membros no parlamento, mais vereadores. Ter um vereador em Toronto é muito pouco. Precisamos ter mais portugueses em lugares-chaves, onde se tomam decisões políticas. A falta de representatividade portuguesa no governo é algo que me preocupa. Somos grande em todos os outros setores: temos advogados, engenheiros, arquitetos, empresários...

Sotaque – O senhor tem esperança que a comunidade brasileira tenha maior integração com a portuguesa?

Alvarez - Se participassem mais, os brasileiros só teriam a ganhar com isso. Eu não gostaria de ser mal interpretado com o que digo, mas sempre que o Brasil participa das copas do Mundo, os portugueses aplaudem a seleção, vão torcer nos cafés. Quando o Brasil foi campeão, em 1994, eu fiz uma festa. Já quando a seleção de Portugal joga, a resposta não é a mesma por parte dos brasileiros. Espero que no futuro a comunidade brasileira melhore essa participação. Há todo interesse que haja uma espírito de fraternidade, participação e união entre as duas comunidades. Espero que com o tempo isso aconteça.  

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