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Crônica: depressão e a arte de sobreviver no Canadá
Por: Barbara Ramos | Sotaque Brasileiro, Numero 4, Primavera 2004

O frio canadense, somado à saudade, desapontamentos e aos problemas de adaptação em um novo país, faz com que todos nós vivamos momentos de tristeza ou desamparo. Sentir tristeza é inerente a todo ser humano, principalmente se vivemos fases de mudanças, começando uma vida diferente, estressante e nos sentindo sozinhos. Sendo assim, todos aqui já vivemos ou sentimos tristeza – definido por um sentimento profundo que nos “puxa para baixo”.

 

S.A.D. ou “Seasonal Affective Disorder” (distúrbio de afetividade sazonal) é uma das formas de expressão de uma doença de diferentes versões. A  depressão atinge muitos canadenses e todos que resolvem viver aqui. É caracterizada por uma melancolia que começa no outono e só termina quando chega a primavera. Mas esta é uma forma leve e transitória de uma doença que pode tomar-se muito séria.

As pessoas sentem uma tristeza bem mais profunda e que afeta as suas atividades diárias. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a depressão é a forma mais comum de todos os distúrbios psiquiátricos e a que causa mais danos ao indivíduo, famílias e à sociedade. Ela afeta quase 20 milhões de adultos por ano só nos EUA. Estima-se que pelo menos 35% dos canadenses irão experimentá-la de alguma forma no decorrer da vida (as estatísticas não são muito claras aqui, já que as pessoas expressam menos os seus sentimentos).

A depressão influencia todos os pensamentos, sentimentos e até a vida de uma pessoa. Modifica a forma como a pessoa sente, age, pensa e percebe o mundo, e retira o sentimento de bem-estar necessário para a nossa sobrevivência. Essa sensação pode afetar qualquer um, independente de gênero, idade, condição social ou raça. Mas, infelizmente, apenas 10% das pessoas afetadas  por ela recebem ajuda adequada. E a maioria (66%) das pessoas que sofrem deste mal não procuram ajuda alguma.

As causas podem ser variadas, incluindo desde condições biológicas ou genéticas (como história familiar, falta ou excesso de alguns nutrientes, desequilíbrio de certas químicas do cérebro; mudanças na dieta, metabolismo, hormônios, etc): ou condições  psicológicas e sociais (estresse, perdas, história de vida, forma de “ver o mundo”, etc). Os sintomas variam de pessoa para pessoa e podem se manifestar de formas diferentes. Os mais conhecidos são a apatia, falta de esperança, baixa auto-estima, problemas de concentração e a preocupação excessiva. Mas os sintomas comuns também incluem: humor depressivo ou irritação; falta de interesse ou prazer em atividades cotidianas (como hobbies, trabalho, ficar entre amigos ou com família), mudanças no peso ou apetite (tanto ganho quanto perda); mudanças nos padrões de sono (tanto dormir muito como pouco); inquietação ou ansiedade; cansaço constante; sentimentos de fracasso, culpa ou perda; dificuldades de concentração e memória; dificuldade na tomada de decisões; solidão; desmotivação; pensamentos de morte ou suicídio; dores, doenças constantes ou queixas psicossomáticas. É importante ressaltar que cada pessoa vive e manifesta a depressão diferentemente. Em geral, mulheres falam mais a respeito, enquanto os homens tentam escondê-la.

Se você sente, já sentiu, ou conhece alguém que esteja sentindo um ou mais dos sintomas listados acima (especialmente se durarem mais de duas semanas, ou se forem acompanhados de pensamentos de morte) – é provavél que esteja convivendo com a depressão e é importante que se procure ajuda. Esse mal não se cura sozinho nem é uma “fraqueza de personalidade”, preguiça ou falta de vontade de enfrentar problemas. Muitas vezes, é necessário ajuda médica  para poder superá-la, já que é considerada uma doença fisica além do controle do paciente, como o diabetes, em que o tratamento médico/ farmacológico é necessário. Lembre-se é importante restaurar o equilíbrio químico antes de tudo.

Os tratamentos são variados, mas incluem: auxílio médico (com medicamentos especializados, homeopatia ou remédios naturais); psicoterapia ou aconselhamento/suporte psicológico; exercício físico (qualquer atividade ajuda, como uma simples caminhada, por exemplo); exposição a luz solar (light therapy) – lembre-se de ligar aquele abajur amarelo e de aproveitar qualquer dia raro de sol no inverno; mudanças na dieta (comer mais frutas e verduras, evitar álcool e cafeína); procura de religião/espiritualidade (já é comprovado que o convivio com pessoas afins e pensamentos superiores é beneficial  benéfico a qualquer doença); convívio com grupos sociais ou grupos de suporte; além de música e dança-terapia (com certeza, “quem canta os males espanta”).

É importante saber que você não está sozinho e que a medicina e a ciência vêm avançando e oferecendo auxílio para tratar esta doença. Assim, é possível superar os blues procurando a ajuda de pessoas amigas e fazendo de tudo para “sair do buraco”. Se precisar de ajuda profissional não hesite em procurá-la. Na maioria das vezes, retomar o balanço químico é a única forma de combater a doença. Não tente sofrer desnecessariamente ou tentar ser “super-homem”. Lembre-se: todos nós já passamos ou passaremos por isto.

A dica maior é não se sentir deprimido, sozinho. Reconhecer e falar a respeito já é um ótimo começo! E acredite que o convívio com pessoas amigas esquenta os corações. Como dizia Gonzaguinha, “viver é não ter a vergonha de ser feliz”. Viva e aprenda sempre! Esse tempero todos os brasileiros têm.

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*Dra. Barbara Ramos é Psicóloga, professora de psicologia e doutora formada pela USP. Atualmente trabalha como Research Associate  na McMaster University, em Hamilton, e como todos, tenta se adaptar à vida nova no Canadá.

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