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Entrevista: Valéria Sales
Por: Sotaque Brasileiro | Sotaque Brasileiro, Número 4, Primavera 2004
Conversamos com Valéria Sales, do "Abrigo Center", centro para apoio aos imigrantes em Toronto.
Como deixou o Brasil pelo Canadá?
Valéria Sales - Tinha uma irmã que morava no Canadá e eu costumo dizer que foi ela quem nos abriu as portas do país. Em 1996, acabamos vindo eu, meu marido e nossas duas filhas, na época com três e seis anos de idade. Deixei para trás uma casa confortável e fui morar em um quarto-e-sala. Vim buscando qualidade de vida. Tinha medo de ter as coisas no Brasil, mas a segurança das crianças foi o fator decisivo para a mudança.
Sotaque - Quais foram suas maiores dificuldades?
Valéria - Foram muitas. Desde que cheguei pensei em fazer uma cartilha para o imigrante. E foi assim que surgiu o meu trabalho. Tudo parece ser difícil no início e quando a gente percebe que não é bem assim, é muito engraçado. Logo que chegamos fomos morar em Bolton e foi desesperador. Depois de quatro meses eu decidi que tínhamos que viver em Toronto. Aí, minha vida mudou totalmente porque eu vi tantas coisas, tantas possibilidades. Naquele momento eu descobri todas as informações que eu procurava e estavam escondidas.
Sotaque - Você pensou em desistir?
Valéria - Nunca, mesmo com todas dificuldade, falta de apoio e informação, eu pensei em desistir. Quando minhas filhas foram para a escola, eu iniciei meus trabalhos voluntários. Eu estudava inglês e voluntariava como fonoaudióloga. Aí eu comecei a ter minhas frustações a respeito da fonoaudiologia no Canadá. Fiquei desencantada com a visão generalista da área aqui. A partir daí fui buscando outros trabalhos voluntários em diversos lugares, como o Abrigo.
Sotaque - Pode-se dizer que o trabalho voluntário abriu portas para você?
Valéria - Com certeza. Eu fiquei no Centro Abrigo quase dois anos como voluntária. Mas eu sempre busquei tudo quanto era trabalho. O programa "Dos zero aos seis anos", que comando até hoje, começou como um convite da Naly Lima, que se tornou uma grande amiga. Ela era a facilitadora e eu como co-facilitadora voluntária. Esse programa completou cinco anos e atualmente é ministrado com sucesso no Centro Abrigo e no College Montrose Children’s Place.
Sotaque - Sua preocupação com a família e as mulheres é grande. A que se deve isso?
Valéria - Quando cheguei, optei por ficar em casa com minhas filhas até elas irem para a escola. Conheço bem como a coisa funciona. Muitas vezes, o imigrante chega aqui e se isola, principalmente quando vem com mulher e filhos. A mulher acaba ganhando um série de papéis dentro de casa e a auto-estima vai lá embaixo. Ela não pode atuar na sua área mas quer ajudar. Então o que ela faz? Vai para um subemprego. E esse subemprego é uma coisa que ela nunca fez antes. Ela sofre e, sofrendo, não é feliz e pode querer voltar. Foi assim que surgiu o programa "Primeiros Passos", que é uma integração, é lembrar às pessoas o que elas querem, o que elas podem fazer para melhorar.
Sotaque - O que acha da opção dos subempregos?
Valéria - Eu costumo dizer que o subemprego é positivo desde que ele nunca interfira em seus objetivos. O subemprego à noite para não perder o dinheiro que você economizou a vida inteira e trouxe para o Canadá, acho válido. Mas desde que ele não interfira, durante o dia ou a tarde, em alguma coisa que faça você correr atrás do seu objetivo.
Sotaque - A realidade do imigrante melhorou ou piorou nos últimos anos?
Valéria - Lógico que a tendência de todo país é não ser do mesmo jeito que era antes. Obviamente existia muito mais oportunidade de trabalho anos atrás, mas agora também existe. Se, por exemplo, você chega hoje e quer trabalhar na limpeza amanhã, você pode conseguir. Eu noto que o perfil do imigrante é que está diferente. O imigrante de antes vinha em busca de dinheiro para voltar para o Brasil. O de hoje, que já vem com os papéis, tem outras ambições.
Sotaque - Qual é o tipo de ajuda que o brasileiro mais procura no Centro Abrigo?
Valéria - Primeiro em relação ao trabalho. Nós temos uma parceria com a Costi, de programas de co-op e recolocação profissional para o imigrante conseguir experiência canadense. Outra dificuldade é o próprio preenchimento de formulários. Muitos ficam perdidos com a burocracia. Ajudamos também em situações como, por exemplo, abrir conta em banco. Sugerimos quatro ou cinco com atendentes que falam português para facilitar a vida de quem está chegando. O Abrigo também tem programas voltados para casal com problemas e crianças com dificuldades em se adaptar. Tudo gratuito.
Sotaque - Você acredita que a comunidade brasileira está à sombra da portuguesa?
Valéria - Eu sinto que a comunidade brasileira poderia se unir mais. A portuguesa neste sentido é maravilhosa, faz um trabalho impressionante de união, prestigiando sempre os empreendimentos da comunidade. Essa é uma característica bárbara dela.
Sotaque - O brasileiro é desunido fora do país?
Valéria - Eu sinto que o brasileiro não se prestigia um ao outro e eu não sei porque. Mas isso é ser humano. Muita gente diz que não se pode confiar em brasileiro, mas não é assim. Não é por ser brasileiro, poderia ser chinês, português, moçambicano. Acontece que existe gente boa e existe gente ruim. Muita gente me diz que não quer ter contato com brasileiro, que quer ficar longe da comunidade. Eu digo que a gente não vive sem a nossa comunidade. Eu sinto que a comunidade brasileira poderia se unir mais. A portuguesa neste sentido é maravilhosa, faz um trabalho impressionante
de união.
Sotaque - Em geral, por que o imigrante retorna para o país de origem?
Valéria - As pessoas que vi retornar foram as que se estabeleceram muito longe e ficaram isoladas de informação, de suporte. Passam dois meses mobiliando casa, procurando carro para comprar, etc. Na hora de procurar emprego mandam os currículos e não conhecem ninguém. Aí o que acontece? Não conseguem nada porque networking é a palavra-chave para isso. Contato com pessoas, mostrar a cara.
Sotaque - Mas na prática não é tão fácil...
Valéria - Quando a gente chega aqui vai recomeçar. Ninguém sabe quem você era, o que você tinha. Isso tudo tem que ser refeito. Muitos não entendem e não aceitam esse refazer. Isso pode ser feito através de um trabalho voluntário, por exemplo. Mas quando se chega querendo começar do mesmo ponto em que se estava no Brasil, é muito difícil. Por exemplo, se você trabalha com computação e aparece um trabalho para ser digitadora na IBM, pega! Porque dali você vai crescer.
Sotaque - O que é necessário ter em mente para não desistir?
Valéria - Atitude e humildade. Acho que quando se chega com a idéia que vai conseguir sozinho, está começando mal. A gente não consegue nada sozinho, precisamos de apoio. Por exemplo, eu acho a área da Bloor and Dufferin, em Toronto, ótima para quem está chegando. Há pessoas que dizem que nunca irão viver ali. Eu rebato dizendo que não é para a vida inteira. Por seis meses ou um ano, vai ser ótimo! Ali tem vários centros de apoio, tem a igreja Santo Antônio, cursos de inglês, está tudo ali. E tudo acontece a partir do seu primeiro ponto de moradia.
Sotaque - A realidade do refugiado é diferente da do "landed immigrant"?
Valéria - Pela incerteza, sim. Ser imigrante com o pedido de refúgio não depende da própria pessoa. Existem poucos casos em que o refúgio se aplica ao brasileiro. O que a gente percebe ultimamente é que o pedido de refúgio está sendo visto como uma forma de abuso de um sistema social. Eu não sei até quando isso vai continuar mas acredito que esteja perto das coisas mudarem. Todos os indivíduos têm o direito de pedir refúgio, porque é um direito humano. Mas pedir é uma coisa, virar imigrante como refugiado, é outra.
Sotaque - Afinal, é inseguro ter o status de refugiado?
Valéria - O Canadá dá o direito ao refúgio. Aquela pessoa foi aceita para ficar aqui enquando o processo estiver em andamento. Cada caso será estudado e esse processo demora, em média, dois anos. O Governo entende que essa pessoa precisa trabalhar e dá uma licença temporária de trabalho; precisa de saúde e dá o direito temporário de usar o sistema de saúde. Só que no final pode sair uma ordem de deportação. Aí, a pessoa acha que não é justo porque está trabalhando ou estudando. Lembre-se de que o Governo não está julgando a índole ou a capacidade daquela pessoa. O que foi julgado foi o pedido de refúgio.
Sotaque - É fácil ser imigrante por um pedido de refúgio?
Valéria - Para brasileiro não é muito fácil não. Quando é caso de violência doméstica constatada, pode acontecer, mas eles estão alegando que o Brasil é muito grande e a vítima da violência poderia se mudar para um outro estado, sem precisar sair do país. Eles também costumam dizer que violência é um problema social do Brasil.
Sotaque - Qual seria sua mensagem para os brasileiros que começam vida nova no Canadá?
Valéria - Não se esquecer que a gente não vive só. O brasileiro precisa de calor humano, precisa da nossa comunidade. Nunca se esqueça de se unir, de dar suporte para aquele que está chegando ou para quem já está aqui. Humildade mais do que nunca. E atitude. Para mim atitude é uma das palavras mais belas que existem na vida.
ABRIGO CENTRE:
900 Dufferin Street (no Dufferin Mall, Suite 104).
O centro oferece apoio a famílias e indivíduos no sentido de se tornarem emocionalmente saudáveis e independentes, por meio de uma relação de apoio e cuidado comunitário.
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