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E quem disse que biquini não é cultura?
Claudio Irving | Sotaque Brasileiro, Numero 5, Verão 2004
Com a chegada do verão todo mundo se preocupa em como se apresentar na praia, piscina, lago, etc. Alguns levam algo pra ler enquando curte o sol e é aí que a gente entra. Nesta edição, vamos "voltar ao passado" com uma curiosa materia: a história do biquini..

Modelo Micheline Bernardini vestindo um biquine desenhado em 1946. |
Tudo aconteceu em 1800 quando os trajes de banho começaram a ser usados em versão muito discreta, para não dizer estranha! As mulheres usavam véus cobrindo o rosto para não se queimarem e, consequentemente, serem associadas às escravas. Imagina ir à praia de botinas, touca e tudo mais? Pois era o que exigia a moda praia de então. Quando, em 1846, o calção foi lançado, apenas os atletas podiam usar já que eles podiam mostrar membros libidinosos como braços, pernas, troncos...oh!
O mais curioso é que à medida que o mundo explodia em guerras, os trajes de banho iam ganhando espaço e menos pano. Após a Segunda Guerra Mundial surgiram os maiôs, que eram privilégios de poucas, considerando o caro material usado (nylon) e o fato de serem feitos sob medida. Seu antecessor foi o espartilho, peça inspiradora para a moda praia ainda no fim da primeira guerra. Em 1946, exatamente um século depois, o biquini foi lançado por um estilista francês que se inspirou no atol de Bikini, onde os americanos na época fizeram testes com a bomba atômica. Seu nome, Louis Réard, e a curiosidade é que ele veio de uma carreira que em nada rima com moda: Engenharia Mecânica. O estilista deduziu que o lançamento seria explosivo tal qual os testes nucleares americanos. Não é que ele estava certo?
Mas não foi fácil conseguir uma modelo para apresentar a peça ao público. Foi no corpo da stripper Micheline Bernardini que o biquini fez sua primeira aparição em Paris. Depois dela, nomes de expressão foram adotando a idéia e, lá estava Brigitte Bardot, que estourou num biquini de babadinhos no filme "E Deus criou a mulher", em 1956, classificando-a como uma das "avançadas" mulheres da época. Surge então um período em que as mulheres americanas e européias seguiam a linha "sou independente, preciso me expressar". O biquini causou tanto frisson que chegou a ser chamado de "quatro triângulos de nada". Correto? Nem tanto. Em 1964 foi criado o topless: daí o biquini virou dois triângulos de nada. E o Vaticano se expressou: nada de mulheres católicas sairem por aí de biquini, assinava Papa Pio XII.
Biquini brasileiro: eu quero! eu quero!
O presidente Jânio Quadros se revoltou e pelo bem da família e dos bons costumes proibiu o uso das sedutoras peças nas areias e piscinas brasileiras. Mas, como o que é proibido é sempre mais gostoso... bum! O biquini explodiu no Brasil sendo venerado por 10 entre 10 mulheres do país, teve seu tamanho reduzido, suas cavas mais decotadas. Até que Zilda Maria Costa deu à luz a tanga e, de carona, ganhávamos a fama de o país criador da moda-praia.
Diversificação, criação e ousadia são palavras inspiradoras para nossos estilistas. Foram surgindo modelos variados como asa-delta, fio-dental, meia-taça, tomara-que-caia, tiras fininhas nas laterais ou ainda o de lacinhos. Os detalhes acentuavam o gosto brasileiro como a armação em arame na parte superiror, estampas que iam do abstrato aos hibiscos e por aí vai.
Hoje, os biquinis brasileiros são bem vindos em muitas partes do mundo graças aos nossos estilistas, que sabem como o diferenciar dos demais. Grandes companhias genuinamente brasileiras vendem seus produtos pelo mundo assumindo a liderança da moda-praia ou beachwear. A Rosa Chá é um bom exemplo. A griffe, que exibe suas criações nos principais eventos de moda do mundo, investe atualmente em tecidos hi-tech e anti-bactericidas, ou seja, tecidos que não deixam o corpo transpirar. Para o calor tipicamente brasileiro, mais uma grande criação!
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