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Entrevista: Dr. Noé Zamel
Por: Renata Almeida | Sotaque Brasileiro, Numero 5, Verão 2004
O fato de ter trilhado uma brilhante carreira internacional já poderia ser suficiente para descrever o médico Noé Zamel como um dos grandes expoentes da comunidade brasileira no Canadá. Mas o seu espírito aventureiro, peculiar característica aplicada também à sua vida profissional, acabou por imprimir a esse gaúcho uma marca especial em seu currículo.
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Esse Indiana Jones da medicina, genuinamente brasileiro, não mede esforços para conduzir suas pesquisas em prol da cura da asma. Resulta da cota de aventuras de Dr. Noé Zamel a façanha de isolar pela primeira vez um gen relacionado à doença, com amplo reconhecimento da comunidade científica internacional. A pesquisa vem sendo conduzida na Universidade de Toronto, na qual Dr. Zamel é professor de medicina. Em entrevista à revista Sotaque Brasileiro, no Hospital Mount Sinai, onde ocupa o cargo de diretor do Pulmonary Function Laboratories, Dr. Zamel relatou suas experiências, traçou um panorama da asma no mundo e falou de seus próximos projetos, que incluem a pesquisa de gens relacionados à adição à nicotina, uma esperança de um futuro melhor para nada menos que 1.2 bilhão de fumantes do planeta.
Sotaque Brasileiro - Como o Sr. deixou o Brasil e veio para o Canadá?
Fiz isso em várias etapas. Formei-me na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, em 1958. Fui então para a Europa, Inglaterra e Holanda, e depois retornei ao Brasil. Em 1968 mudei-me para os Estados Unidos e, finalmente, em 1972, para Toronto.
Sotaque Brasileiro - O Sr. viajou para lugares longínquos e isolados do mundo a procura da cura da asma. Porquê dessa opção O que o levou a fazer isso e como foram suas experiências?
A razão pela qual fizemos a expedição a Ilha de Tristão da Cunha, que é a comunidade mais isolada no mundo inteiro - fica a meia distância entre a Cidade do Cabo (África do Sul) e Buenos Aires (Argentina) - é que existe lá uma população de apenas 300 pessoas, e metade delas tem asma. Dado o isolamento, todos descendem de poucos ancestrais. Como a asma é uma doença genética, a prevalência da doença em Tristão da Cunha é 10 vezes maior que os 5 a 6% normais da população cosmopolita em geral.
Sotaque Brasileiro - Quais eram os objetivos da expedição?
Obter dados clínicos, através de testes alérgicos, teste de função pulmonar para detectar quais dos habitantes tinham asma. Em seguida foi feita a coleta de colher sangue para exames de DNA que foi trazido para a América do Norte, onde após os exames de DNA, isolamos o primeiro gen relacionado à asma.
Sotaque Brasileiro - Em algumas reportagens, como por exemplo a que deu ao programa Fantástico da Rede Globo e também à revista Veja, em 1998, o Sr. recebe denominações como “Indiana Jones” da medicina ou médico aventureiro. Como encara isso?
Sempre fui aventureiro, razão pela qual estou no Canadá, ou não teria talvez sequer saído de minha cidade natal, de minha rua. Andei e ainda viajo muito profissionalmente coletando dados. No momento, estamos conduzindo estudos com uma família de 150 pessoas de uma ilha na China e outro com uma família de 250 pessoas no Brasil, numa cidade próxima do Rio de Janeiro, ambas com alta incidência de asma. Se fosse relatar todas as minhas aventuras, não haveria espaço suficiente aqui. Mas a expedição de Tristão da Cunha é única. Lá, a gente se sente realmente isolado do mundo. Não há aeroporto e o transporte é essencialmente marítimo, com viagens em pequenos navios de missões científicas do Polo Sul, ou os pesqueiros, que apenas passam pela ilha em espaços de três a quatro meses. Estive lá em 1993 e depois em 1996, para obter material mais detalhado. Hoje esse material é utilizado em pesquisas com camundongos, na Universidade de Toronto, para ver quais são as funções e as possibilidades terapêuticas, uma vez entendida qual a relação deste gen como esse gen esté relacionado com o desenvolvimento da asma.
Sotaque Brasileiro - A asma tem cura? Há alguma esperança nesse sentido para as milhares de pessoas que convivem com a doença?
Não. Há, claro, sempre esperança para a cura de todos os males de saúde e sociais no mundo, senão perde-se tudo. Mas que haja no horizonte a curto prazo cura, é muito pouco provável. Ainda não sabemos quantos são ou como interagem os gens responsáveis pela doença.
Sotaque Brasileiro - Como a asma está distribuída no mundo em termos populacionais e geográficos?
Em geral, 12% das crianças e 6% dos adultos têm asma. O equivalente a 300 milhões de pessoas no mundo, ou uma em cada 10 crianças. Metade das crianças quando passam pela adolescência melhoram, em especial os meninos, tornando-se assintomáticos. É o que chamamos asma oculta ou coberta. Geograficamente, não a prevalência, mas a severidade da asma é pior em comunidades de menor afluência.
Sotaque Brasileiro - É possível controlar os desencadeadores da asma?
A asma é uma doença desencadeada por fatores diversos. Do ponto de vista ambiental, deve-se diminuir a exposição à poeira doméstica para se evitar o contato com o ácaro. Cortinas, tapetes e principalmente lençóis e fronhas devem ser trocados frequentemente. Quando há sensibilidade a gatos e cachorros, sobretudo aos primeiros, não é aconselhável mantê-los em casa. As crises de asma não devem ser subestimadas, mas a superproteção das crianças não procede. Há um paradoxo, não só exclusivo da asma mas comum às alergias em geral, pois nota-se que quanto mais obsessão com higiene na infância, quanto mais limpa a criança, mais alérgica ela é.
Sotaque Brasileiro - Quanto aos tratamentos, existe algo inovador?
A maioria são bombinhas inalatórias que diminuem os sintomas e podem também prevenir as crises. São substâncias que relaxam os músculos das vias aéreas. Outras, são medicamentosas, que diminuem a inflamação, especialmente derivados de corticoesteróides. De forma geral, estão cada vez mais desenvolvidas e sem os efeitos colaterais, como tremor, nervosismo, excitação cardíaca, catarata, osteosporose e, nas crianças que usam muito, até retardamento do crescimento. O mais importante é o paciente se educar em relação à asma. Ele hoje pode ter aparelhos em casa, como os diabéticos, para medir a punção e se automedicar de forma objetiva. É possível ter uma vida bastante normal tendo-se asma, e, chama-se a atenção ao grande número de atletas que convivem com o problema.
Sotaque Brasileiro - Qual será sua próxima aventura?
Ir em busca de gens relacionados à adição à nicotina, que é uma das causas de maior mortalidade, morbidade e perda econômica do ponto de vista de saúde publica. A adição - e não vício, que tem uma conotação amoral - é uma dependência química que a pessoa tem à nicotina. A causa da dependência é 60% genética e cerca de 85% dos fumantes que tentam parar, não conseguem isso com sucesso. Não é possível jogar a culpa na falta de força de vontade, pois para muitos isso é um esforço sobre-humano. Eles retornam quando enfrentam situações estressantes como perdas de um ente querido ou do emprego.
Sotaque Brasileiro - Como o Sr. vê as ações governamentais para o combate ao cigarro?
Dos 6 bilhões de habitantes do planeta, 1,2 bilhão são fumantes e somente 200 milhões destes podem realmente parar. É preciso mais recurso dos governos para a pesquisa genética. E, também, enquanto não se descobrem os gens e tratamentos, elaborar substitutos para o cigarro que sejam mais seguros e menos nocivos, como por exemplo a administração de nicotina pura. Temos isso no mercado, mas não são produtos muito satisfatórios. A nicotina em si é o elemento mais inocente do fumo, o pior são os cerca de 4 mil tóxicos que a acompanham.
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