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Maracatu Rural: doce da boca e alegria dos olhos
Por Isis Juliana | Sotaque Brasileiro, Numero 5, Verão 2004
Sob o sol quente reluz uma figura de cravo na boca, cabeleira colorida, manta bordada em lantejoulas que dança em passos ritmados por um batuque contagiante. Seria algum personagem de um novo desenho japonês? Em parte sim. Trata-se de um herói. Sem dúvida não um daqueles fabricados pela mídia. É um personagem que conhecido como caboclo de lança, trás além do pesado manto colorido, uma grande riqueza histórica e cultural brasileira: o Maracatu Rural.

Figura do Caboclo, Maracatu Rural |
A cidade do maracatu rural fica a 80 km de Recife, em um município chamado Nazaré da Mata. Em plena região canavieira, homens simples que vivem do corte da cana trocam a roupa surrada e os chapéus de palha por fitas coloridas e pelas vastas cabeleiras. Existem cerca de 30 grupos de maracatu que se concentram na pequena Nazaré da Mata. Entre os caboclos, há jovens e idosos, que têm em comum a mesma empolgação e o orgulho de vestir as suas mantas coloridas, fabricadas por eles, seguindo a tradição.
Como manifestação exclusiva de Pernambuco, existem dois tipos de maracatu: o de baque solto, conhecido como rural e o de baque virado, herança do Rei do Congo. Segundo o historiador Leonardo Dantas Silva em seu ensaio Maracatu: Presença da África no Carnaval do Recife, publicado em 1988 pelo Centro de Estudos Folclóricos da Fundação Joaquim Nabuco, os préstitos de coroação deram origem aos folguedos musicais do maracatu. Foram os colonizadores portugueses, que incentivaram a instituição de reis e rainhas negros protegidos pelas irmandades de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, com o intuito de ordenar a administração dos negros trazidos como escravos para o Brasil a partir de 1538. Com a abolição da escravatura o maracatu passou a desfilar nos dias dos Santos Reis, nas festas de Nossa Senhora do Rosário e no carnaval.
Já com o Maracatu Rural a historia é diferente. A crise que antecedeu a II Guerra Mundial provocou uma onda migratória da zona rural para o Recife. Os Maracatus Rurais, também conhecidos como Maracatus de Orquestra ou de Trombone, surgiram nessa época, através da fusão de vários folguedos do interior de Pernambuco, especialmente da zona canavieira. Portanto, nada têm a ver com a instituição mestra do Rei do Congo.
No Maracatu Rural, música, poesia, religião, ritual, brincadeira e, sobretudo, muita cor e animação se misturam. Uma apresentação de maracatu rural se constitui em um ritual feérico. A coreografia é dirigida por um mestre, que usa um apito para coordenar o evento. A cada som do apito a orquestra silencia e os caboclos se abaixam solenemente, em reverência. O Mestre então, recita as loas, versos improvisados que abordam temas regionais e homenageiam integrantes do grupo, autoridades e o lugar onde estão se apresentando.
Ao final de cada loa, a orquestra recomeça a música e os caboclos agitam suas lanças. A lança é de madeira torneada e tem a ponta aguda, medindo 30 cm. Os integrantes a seguram com as duas mãos e brincam para cima, para baixo, para os lados, afastando a multidão, enquanto correm, saltam e dançam. Entre os passos característicos acontece um duelo fictício que lembra, pelas batidas das lanças, as danças de espada ou de bastão.
O maracatu rural agita desde salões sofisticados até áreas populares preservando sempre a tradição do ritmo. Diante de um mundo bombardeado por heróis midiáticos, num lugarejo distante, num solo árido castigado pelo sol ardente, existe um herói com grandeza de espírito capaz de perpertuar as raízes culturais do nosso Brasil.
Ele não tem visão de raio-x mas através dele vemos o nosso passado.Tem poderes suficientes para fazer perpetuar a nossa história. Com ornamentos dignos de reis e rainhas, contagia multidões com alegria. E alguns dias depois, após os festejos do carnaval, volta a vestir suas roupas surradas, seu chapéu de palha e cai na luta do dia-a- dia com a missão de colher a cana que vai adoçar a boca do mundo.
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