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O ritmo do Maracatu em Toronto
Sotaque Brasileiro, Numero 5, Verão 2004

Movida pela paixão pelo Maracatu, a musicista e percussionista Aline Morales, de 26 anos, vem se destacando no cenário cultural de Toronto com seu grupo Maracatu Nunca Antes, mostrando que os valores culturais brasileiros vão muito além do samba e do carnaval.

Grupo Maracatu Nunca Antes
Grupo Maracatu Nunca Antes

Começando timidamente a ganhar seu espaço na cidade em agosto de 2002, o grupo Maracatu Nunca Antes tem hoje a cara, ou melhor, as muitas caras que espelham o mosaico cultural de Toronto: canadense, indiana, caribenha, vietnamita, e, claro, brasileira.

De saida, um fato curioso chama a atenção: Aline não é, como se poderia esperar, uma típica representante de Pernambuco, terra do Maracatu. É, sim, uma mineira, de Belo Horizonte que transitou pela capoeira até se deixar seduzir definitivamente pelo potente apelo dos tambores e pela energia vibrante e teatral do Maracatu. "Antes, apenas conhecia a palavra maracatu através de Chico Science. Quando me aproximei, vi só tambores enormes, nenhuma guitarra de rock'n roll. Só mais tarde percebi o quanto é maravilhosa a energia do Maracatu", lembra Aline.

A vinda de Aline para Toronto também passa pelos caminhos da paixão, só que, no caso, direcionada ao canadense Alex Bordokas, de 29 anos. Os dois se conheceram numa festa em Belo Horizonte, num momento em que Alex desconhecia por completo o ritmo do Maracatu. "Como todo bom turista, ele estava interessado na capoeira. Caiu de para-quedas lá em Belo Horizonte, mas acabei seduzindo-o para o Maracatu", brinca Aline. Num único encontro, duas flechadas? Nada mal.

De volta a Toronto, Alex reuniu um grupo de amigos e apresentou os tambores e o ritmo que, na verdade, é denominado Baque Virado. Algo ainda bem informal até a chegada de Aline, quando o grupo tomou forma. Hoje, são cerca de 20 integrantes fixos, alem de participantes de oficinas temporarias.

Ao lembrar de como o Maracatu foi ganhando forma em Toronto, Aline não esconde um certo desgosto em relação à receptividade por parte dos brasileiros daqui. "Nas apresentações, acho curioso que seja um sucesso para canadenses que nem entendem exatamente o que se passa, mas se envolvem, e tenha uma receptividade fria por parte da comunidade brasileira". O motivo poderia ser o desconhecimento dessa manifestação cultural, já que o Maracatu é pouco divulgado até mesmo no Brasil.

O Maracatu é um folguedo nascido com os escravos no Brasil Colonial, atendendo à uma exigencia dos portugueses que queriam uma hierarquização da comunidade escrava. "Isso serviria para facilitar o diálogo e resolver problemas", explica Aline. Os escravos, então, adicionaram seu tempero à proposta, adicionando a coroação do rei e da rainha Congos, muita musicalidade e teatro.

A corte do Maracatu tradicional é completa com rei, rainha, embaixador e princesa. "Tudo vem da entidade de Nossa Senhora do Rosário. O Maracatu desenvolveu-se em Recife da mesma forma que o Congado em Minas Gerais. Só que o Congado tem um braço mais católico, enquanto o Maracatu é ligado ao candomblé, afro-brasileiro mesmo", acentua Aline.

O som é pesado, com utilização de cinco instrumentos percussivos, altos, conduzidos pelo grande tambor chamado "alfaia" que dita as regras, os ritmos, o tipo de dança. A música geralmente tem temática religiosa, citando Nossa Senhora do Rosário e enfatizando a rainha, o rei, ou Luanda, a terra prometida para a qual os escravos sonhavam regressar, conforme explica Aline Morales. "O Maracatu é então como um barco, a procissão é uma dança nobre, onde os participantes simulam estar remando o barco".

Há também as "calungas", bonecas sagradas que representam os deuses orixás. Um fator interessante é que a rainha é quem manda no Maracatu. "Ela é poderosíssima, geralmente é mãe de santo também, iniciada no terreiro de candomblé", esclarece a percussionista. Os ritmos vêm desses terreiros, onde se cultua muito xangô, o deus do trovão.

O Maractu Nunca Antes é o único do gênero existente no Canadá, mas há grupos similares na Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos e França. Além de uma agenda de apresentações em diversos festivais e eventos culturais, Aline planeja trazer nomes expressivos do Maracatu e de ritmos típicos do Nordeste brasileiro como o Coco e o Afoxé para ministrar oficinas em Toronto. "É preciso renovar conhecimento, o Maracatu tem essa coisa bem espiritual, aproxima muito as pessoas. Sinto-me orgulhosa em poder dar essa contribuição divulgando nossa cultura, além de ser um prazer pessoal imenso" conclui Aline Morales.

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