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Maternidade no Canadá
Por Viviane Rosa | Sotaque Brasileiro, Numero 5, Verão 2004

O Canadá é um país que recebe muitos imigrantes. A comunidade brasileira ainda não é considerada muito expressiva e, conforme o Consulado Geral em Toronto, a estimativa de brasileiros em todo o país é de dez mil pessoas. Essa estatística vem crescendo e a cada ano mais brasileirinhos de identidade canadense estão nascendo, crescendo e firmando raízes por aqui. Apesar de já possuírem a tão esperada cidadania, a hereditariedade é brasileiríssima. Alguns dos bebês que fazem parte dessa nova geração dão um colorido especial a essa matéria e seus pais vão contar suas experiências de gravidez, parto e pós-parto. As insegurancas desses pais são as mesmas de muitas futuras mamães e papais que buscam informações a respeito de como acontece a maternidade por aqui..

maternidade no canada

Uma fusão de sentimentos envolvem as pessoas ao chegarem no Canadá. O fato de imigrar, deixar a família no Brasil, conviver com uma nova língua e adaptar-se numa terra culturalmente diferente do seu país, geram várias expectativas e receios. Quando junto a todo esse processo aparece uma gravidez algumas incertezas e medos surgem ao mesmo tempo. Para tranquilizar alguns pais aflitos a Sotaque Brasileiro buscou algumas experiências e tem muitas informações a respeito desse momento tão especial.

"Longe da mãe, primeiro filho, cuidados e dieta especial devido a diabete gestacional, algumas inseguranças com relação ao parto e à anestesia, mas foi tudo foi muito tranquilo". É assim que a paulista de Mogi das Cruzes, Elizete Granja, casada com o goiano Sérgio Pereira descrevem sua experiência como pais de Henrique, hoje com quase 8 meses. Elizete escolheu o Trillium Hospital, na cidade de Mississauga, para ter seu bebê. O parto precisou ser induzido duas semanas antes do previsto devido ao risco dos problemas que poderiam ocorrer pela diabete gestacional. Durante a gravidez a futura mamãe foi assistida pela médica de família até o 7º mês de gestação. Em geral o obstetra estabelece o contato com a paciente faltando os dois últimos meses para o nascimento. Elizete frequentou aula de amamentação e seguiu exatamente a orientação dos médicos com relação à nutrição. Diariamente ela verificava seu nível de açúcar no sangue através de um aparelho medidor obtido logo no início do pré-natal. Toda grávida com esse problema recebe esse aparelho e ela deve reportar ao doutor caso o índice de açúcar na corrente sanguínea exceda o limite.

No dia do nascimento Elizete sentiu-se segura e confiante e relatou com satisfação sua experiência hospitalar. "O trabalho das enfermeiras foi ótimo, uma delas ficou a noite inteira responsável por mim e o médico participou apenas no momento do nascimento. Tudo aconteceu muito naturalmente, adorei o parto normal", comenta a mamãe. Para relaxamento e conduzir melhor o trabalho de parto, Elizete pôde permanecer por algumas horas em uma banheira de hidromassagem e no momento certo recebeu uma anestesia para ter um parto sem dor. Para o papai Sérgio Pereira nao existiu emoção maior do que assistir seu filho nascer. "Nós pais participamos do nascimento, aliás temos a obrigação e o prazer de estar ali junto, ajudando a esposa. O melhor de tudo é ainda depois de vê-lo nascer somos nós que cortamos o cordão umbilical", descreve Sérgio.

Além da permanência importante do marido, as mamães no Canadá podem contar com a presença de outra pessoa durante o nascimento. Há a opção de ter um familiar, uma amiga ou ainda pode-se tentar obter a assistência das Doulas. As Doulas são mulheres que ficam ao lado da parturiente, sem o compromisso de oferecer auxílio médico ou obstétrico, mas um auxílio biológico. Um apoio afetivo e emocional antes, durante e após o parto, principalmente para os imigrantes que não possuem parentes no Canadá. Para ter a companhia da Doula é preciso consultar junto ao sistema de saúde na província sobre a disponibilidade, assim como a respeito das midwives (parteiras) registradas na cidade. Em alguns lugares do Canadá há Casas de Parto, complexos que mais parecem casas de repouso ambientadas e decoradas de forma familiar para que as mamães sintam-se num verdadeiro lar aconchegante. Nesses locais é comum os partos acontecerem na presença das Doulas e Midwives.

Em todo o Canadá esse sistema de saúde é gratuito. As pacientes não despendem dinheiro com médicos, exames e internações. Num primeiro momento a acomodação é em quarto duplo ou em enfermaria confortável com telefone e banheiro. Alguns hospitais oferecem quartos privados com cama para acompanhante, mas existe um custo. Vale lembrar também que algumas empresas favorecem seus empregados e suas famílias com auxílios saúde que cobrem certas despesas extras com internações hospitalares e com compras de remédios.

Outro aspecto interessante e que se extende a todas as províncias são os vários programas direcionados para grávidas e mães de bebês. Os hospitais incentivam visitas prévias para que seja do conhecimento dos pais o trajeto até o setor obstétrico ou de "delivery" da maternidade. Há ainda todo um processo de entrevista para detectar possíveis problemas na família, como doenças hereditárias, depressão ou alergias a medicamentos. É feito também uma sondagem a respeito do ambiente familiar para identificar se a criança foi desejada e se está realmente sendo bem vinda. As gestantes recebem toda a assistência e orientação psicológica junto com seus maridos. Alguns hospitais organizam palestras, aulas de amamentação e curso de pré-natal para os pais saberem conduzir saudavelmente a gravidez e entenderem os procedimentos do parto.

Diferente do Brasil onde o índice de cesáreas na rede pública em 2003 foi de 25% dos nascimentos e na rede privada passa dos 80%, a prática do parto normal é muito incentivada por aqui. Muitos médicos acreditam que a intervenção cirúrgica deva ser feita em último caso ou quando há risco para mãe ou bebê nascer de parto natural. Uma pesquisa feita pela Organização Mundial de Saúde revela que no Canadá e nos Estados Unidos 97% dos partos acontecem em hospitais e 7% dos nascimentos são assistidos por parteiras ou enfermeiras obstétricas, sendo que 2% desses ocorrem em casa. Há também alguns grupos que defendem o parto humanizado, no qual a mulher deve ter o direito de parir da forma mais fisiológica possível, mesmo em hospital, mas sem tricotomia (raspagem dos pêlos), enema (lavagem intestinal), episotomia (corte), medicamentos ou anestesia.

O parto normal foi a opção escolhida pela brasileira de Minas Gerais, Adriana Nogueira. Ela e o marido Paulo Nogueira são os pais de Isabela, 7 meses, e Paula, 3 anos, ambas nascidas em Toronto, no Hospital St. Joseph's. Na primeira gravidez, Adriana estava confiante, tinha a presença dos pais e sua gestação havia sido muito saudável. A futura mamãe trabalhou até o oitavo mês e sentia-se pronta para o parto normal, contudo ela não contava que seria sem anestesia. " Eu queria muito um parto normal, mas sempre tive medo da dor, minha bolsa rompeu e eu fiquei 7 horas em trabalho de parto. As enfermeiras foram ótimas, mas quando verificaram eu já havia passado dos 6 cm de dilatação e o médico falou que eu tinha condições de dar a luz sem a anestesia. Não foi fácil, mas deu tudo certo." Lembrando que o bebê vem ao mundo quando a dilatação atinge 10 cm. Na segunda gravidez, Adriana fez a escolha do parto normal, contudo exigiu a epidural e não se arrepende: "as duas experiências foram maravilhosas, minhas filhas nasceram saudáveis e grandes, mas o parto da Isabela foi mais confortável, sem sofrimento", comentou.

Para a paulista Sara Barreto e para o português Luiz Rapouso não houve jeito de fugir da cesárea que trouxe ao mundo o menino Gordon, com 9 meses. "O médico queria parto natural mas na última hora ele se virou pro lado e subiu e então ficou perigoso esperar". No início Sara estava decidida pelo parto normal, entretanto a gravidez ja estava avançada na 42ª semana, a incerteza da saúde de seu bebê fez com que ela deseja-se mais do que nunca um parto cirúrgico. "A cesárea já estava marcada, mas a bolsa estorou então fomos pro hospital, mas o trabalho de parto começou a demorar, pouca dilatação e ele mudou a posição, o tempo foi passando e eu ficando nervosa. A partir do momento que o médico decidiu pela cesárea foi tudo rápido e trânquilo. Minha recuperação foi ótima também", afirma Sara. Após o nascimento de Gordon, já em casa, Sara recebeu durante quatro semanas a visita de uma enfermeira. O sistema de saúde põe a disposição da nova mamãe uma profissional que responde a dúvidas e também observa problemas como depressão pós-parto ou aspectos relacionados ao bebê, por exemplo a posição correta para a amamentação. Caso seja necessário é disponibilizado ainda uma intérprete da língua de origem da paciente para facitar o entendimento e as visitas podem continuar regularmente.

Em qualquer lugar do mundo a maternidade gera muitas expectativas e questionamentos. Embora existam algumas diferenças culturais diversos dos procedimentos aqui são feitos de forma semelhante no Brasil. No sistema brasileiro há as diferenças no atendimento da rede pública e da rede privada. No Canadá o sistema de saúde é homogêneo para todas as pessoas e tudo é oferecido gratuitamente para todos os residentes no país. Todavia, as experiências contadas por essas famílias brasileiras que tiveram seus filhos aqui nos revelam que tanto no Canadá como no Brasil o mais importante é seguir as orientações médicas, realizar o pré-natal com atenção, proceder os exames regulares, respeitar os limites sem abusar e estar bem orientada e confiante para chegada do novo bebê. Para os entrevistados, a chegada de um novo filho traz consigo muitos planos e todos concordam que o fato de seus filhos serem canadenses representa muito para eles no futuro. "Nossas filhas tem a desvantagem de não poderem brincar tanto nos parques devido a esse inverno longo que temos aqui. Quando temos sol e calor tudo fica mais colorido e criativo, mas a cidadania conquistada por elas abre as portas para o mundo", observa o casal mineiro, Adriana e Paulo.

Em Ontário:

Doulas:
www.canadiandoulas.com

Association of Ontario Midwives
Fone: 4164259974
www.aom.on.ca

Ministry of Health: Midwifery in Ontario
www.gov.on.ca/MOH/english/pub/women/midwife/html

Em Quebéc:

B.P. 354, Station Cote-des-Neiges,
(514) 738-8090 (514) 738-0370 (FAX)
Montreal, PQ H3S 2S6
Email: sages.femmes.qc@sympatico.ca

Depoimento da própria jornalista - Experiência nos dois países

Uma vez eu li que o parto deveria ser considerado como uma travessia do mar e do ocenao. O barco sai do porto sem saber claramente o que vai encontrar pela frente. Embora eu não aceite a frieza das comparações, concordo em parte com esse pensamento. Quando penso na minha experiência de vida acredito que nasci para ser mãe e estive preparada quando meus filhos nasceram. Tive duas experiências, uma no Brasil há 9 anos atrás e outra aqui, bem recente, em outubro do ano passado. Foram dois partos normais, todavia os dois momentos aconteceram de forma completamente distintos.
Fiquei um pouco apreensiva com a idéia de ter um filho aqui, apesar de sempre ter recebido bom atendimento de saúde. Tive receios com relação ao tratamento dos médicos. Há uma certa distância do médico e paciente, uma frieza e impessoalidade no contato. Contudo aprendi que isso faz parte da cultura e que no Brasil somos até exageradamente confiantes nos doutores, eles muitas vezes são mais que profissionais, tornam-se nossos amigos. Entretanto aprendi que devemos respeitar as diferenças culturais.

No Brasil toda a minha primeira gestação foi acompanhada pela obstetra, fiz visita ao hospital e todos os exames regularmente.

Não sei de que maneira os hospitais procedem atualmente, mas na época do nascimento do Gabriel meus primeiros momentos no hospital foram de preparação para o parto, lavagem intestinal e raspagem dos pêlos. Na sala de parto estavam o tempo todo, o médico obstetra, o anestesista, uma pediatra, 4 enfermeiras e meu marido como méro espectador e cinegrafista. Os primeiros cuidados do meu filho foram por conta da pediatra e eu só pude segurá-lo uns 10 minutos depois. Considero que embora o processo tenha sido bem conduzido, minha participação e do meu marido foi pequena. Senti as dores, mas não ajudei tanto meu filho vir ao mundo, a dosagem anestésica bloqueou totalmente minhas sensações e ainda não pude pegá-lo logo que ele nasceu.

Acredito terem ocorrido mudanças no sistema brasileiro e que alguns hospitais investem na idéia do parto mais humanizado. Sinto que a idéia do parto mais natural produz uma sensação mais prazerosa à futura mãe. Foi assim que aconteceu no Canadá comigo. Durante o meu trabalho de parto no hospital, estive aos cuidados de uma enfermeira obstétrica e não houve nenhuma preparação especial como a que houve da primeira vez. A médica foi atenciosa e gentil, porém apenas compareceu nos momentos finais, quando a Lara já estava com a cabeça para fora. Meu marido e uma amiga estiveram ao meu lado o tempo todo, não apenas como méros espectadores, mas com presença ativa. A Lara veio ao mundo com a nossa efetiva participação. Eu recebi a epidural, contudo pude sentí-la se aproximando de nascer até passar. O momento mais especial foi segurá-la logo que nasceu, presa ainda pelo cordão umbilical. Foi muito emocionante esse primeiro contato.

Caros leitores, essa foi a minha participação como jornalista e mãe. Há muito mais para contar, discutir e aprender sobre parto, gravidez, maternidade pelo Canadá. Gostaríamos de poder ter vocês como agentes participativos dessas experiências. Vamos descobrir as diferenças daqui e do Brasil, analisando vantagens e desvantagens dos dois lugares. Enfim, escrevam pra gente contanto, questionando, pedindo opiniões sobre essas situações vividas aqui por muitos brasileiros. A troca de experiências é muito válida, um verdadeiro bate-papo de pais pra pais. Cada história bem vinda poderá ajudar muitos futuros papais e mamães imigrantes.

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