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Portfolio: Ricardo Sternberg
Renata Almeida | Sotaque Brasileiro, Numero 5, Verão 2004

Memórias brasileiras na poesia de um carioca "meio mineiro".


Ricardo Sternberg

Conversar com Ricardo Sternberg é como passear pelos caminhos da literatura brasileira e portuguesa com um amigo empolgado com o que fala, mas sem pretensão de dar aulas aos ouvintes desavisados. Nossa conversa, por telefone, aconteceu tarde da noite mas nem isso foi capaz de tirar o interesse de Ricardo nas minhas perguntas sobre sua história, sua carreira acadêmica e literária.

Sternberg deixou o Brasil pelos Estados Unidos quando tinha 15 anos. Ao lado dos pais e dos três irmãos, foi morar em Berkley, na Califórnia, onde completou seus estudos de high school e, em seguida, ingressou na UCLA (Universidade da Califórnia), estudando Literatura Comparada. "Minha tese foi sobre Carlos Drummond de Andrade. Por causa dele e também por ter estudado dois anos no colégio interno Santo Antônio, em São João del Rey, eu me sinto meio mineiro", confessa o carioca. Depois disso, recebeu uma bolsa de estudos para a Universidade de Havard, onde ficou três anos. As ofertas de empregos foram surgindo e ele acabou aceitando a proposta da Universidade de Toronto, onde está há 25 anos. O programa de bacharelado em Literatura Brasileira e Portuguesa oferecido pela Universidade de Toronto é único em todo o Canadá. Na Uof T, ele também ministra aulas de pós-graduação em Literatura Comparada.

Mas afinal, como surgiu a idéia de escrever livros de poesia? Ricardo conta que começou a brincar com poesia desde novo. Ele ia escrevendo e colecionando seus poemas, até que surgiu o primeiro livro, chamado The Invention of Honey, publicado em 1990, com segunda edição em 1996. O livro, assim os seguintes que assinou, Map of Dreams (1996) e Bamboo Church (2003), são escritos em inglês. Ele explica: "A poesia está ligada a voz mais do que a prosa, que está ligada à escrita. A voz que eu escuto é em inglês". Quando perguntado se não tem vontade de escrever um livro em português, ele não hesita em responder: "se voltasse para o Brasil, tenho a impressão que escreveria um".

Se a escrita é em inglês, as memórias, no entanto, são bem brasileiras. "A poesia é muito uma visita ao passado, por isso escrevo o que passei no Brasil. É uma tentativa de ver um pouco o que o olhar automático esconde", explica Ricardo. "Escrevo memórias antigas, de quando eu tinha sete, oito anos de idade, seja do bairro em que morava no Rio de Janeiro, Botafogo, ou de Cabo Frio, cidade onde costumava passar férias. Quando releio o que escrevi, memórias tão bem escondidas em mim, eu rio para dentro", confessa. Por causa do seu trabalho, Sternberg ganhou o National Discovery Prize e o Pusheart Prize.

Carlos Drummond de Andrade, Cabral de Melo Neto, Machado de Assis e Eça Queiroz, são alguns dos representantes da literatura brasileira e portuguesa que inspiram e que Ricardo ensina nos seus cursos da Uof T. "Todo grande poeta influencia o trabalho de um escritor, a maneira de ver o mundo e de tratar a poesia", diz Ricardo. Drummond, no entanto, é um capítulo à parte na vida do escritor. Como já fez bastante traduções do poeta mineiro, Ricardo começou a se corresponder com ele por meio de cartas "singelas e delicadas", como define. Quando o assunto chegou na poesia brasileira contemporânea, ele citou Ferreira Gullar e, mais recente, Frederico Barbosa.

Em novembro, o professor, poeta e tradutor, estará participando, a convite da University of London, da Conferência Exilio Immigration from-to the Portuguese Speaking Country. O próximo projeto de Sternberg como poeta já está definido: uma sequência poética sobre um personagem chamado Lord Tamarind. No entanto, como ele costuma de dizer, sua "safra entre um livro e outro é de sete em sete anos".

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