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Turismo Brasil: Maranhão - raças, ritmos e cores
Sotaque Brasileiro, Numero 5, Verão 2004
É impossível traduzir o fascínio e a magia do Estado do Maranhão em poucas palavras. Localizado numa zona de transição entre o Nordeste e o Norte do Brasil, o Maranhão é um desses lugares abençoados pela natureza. É o estado brasileiro que apresenta a maior diversidade de ecossistemas em seu território, desde floresta Amazônica e litoral a cerrados e pântanos. Possui um deserto repleto de água (Lençóis Maranhenses) e o maior banco de corais da América Latina (Parcel de Manoel Luis).
Folclore
Sem dúvida nenhuma a grande festa folclórica popular maranhense é o Bumba meu boi. Como quase tudo no Maranhão essa festa é o resultado da mistura de raças característica do Estado. Os brancos trouxeram o enredo da festa; os negros, escravos, acrescentaram o rítmo e os tambores; os índios, emprestaram suas danças e os festejos juninos maranhenses transformaram-se no grande palco em que reina majestoso o Bumba meu boi, uma feliz mistura de música, folclore, teatro e dança.
O Bumba meu boi, independente do estilo, mantém um enredo-base. Catirina, está grávida e deseja comer a língua do boi mais bonito daquele pasto, Mimoso, e induz seu homem, Pai Francisco, vaqueiro de confiança do dono da fazenda, a matar o garrote. O boi é morto e Pai Francisco descoberto. O dono da fazenda chama o Pajé, que com um maracá na mão, entoa cânticos e faz rezas até os espíritos das florestas aparecerem e dancam até o milagre acontecer. Mimoso ressuscita, o faltoso é perdoado e a festa então vira a madrugada. Os bois mais tradicionais são os dos municípios de Axixá, Pindaré e Morros; de São Luís, destacam-se os bois de Maracanã, Maioba e Madre de Deus.
Culinária
A culinária do Maranhão é profundamente influenciada pelas culinárias indígena e africana com algumas pitadas da portuguesa. Variando desde os pratos mais exóticos, com destaque para o cuxá (prato de origem indígena à base de uma verdura típica, a vinagreira), arroz de batipuru, casquinho e unhas de caranguejo, torta de camarão e peixe frito até os pratos mais tradicionais feitos à base de peixes (dezenas de espécies), siris e sururus.
Entre um prato e outro, o turista não deve deixar de provar a tiquira, aguardente à base de mandioca, e refrescar-se com sucos, cremes, sorvetes ou licores de frutas típicas da região como os de bacuri, cupuaçu, murici, cajá, sapoti, buriti, jenipapo, graviola e juçara. Impossível não experimentar as cocadas, os bolos de tapioca ou de macaxeira, pamonha, canjica, mingau de milho ou o delicioso beiju. Todo este colorido torna a culinária maranhense uma das mais pitorescas e deliciosas do Brasil.
São Luís
São Luís, sua capital, está localizada na ilha do mesmo nome e tem uma trajetória histórica no mínimo original: foi a única capital brasileira fundada por franceses, em 8 de setembro de 1612. O sonho dos franceses durou apenas tres anos pois foram expulsos pelas tropas portuguesas em 1615. A cidade foi novamente invadida em 1641, agora pelos holandeses, que já ocupavam Recife, e essa luta sem tréguas prosseguiu por outros tres anos até a expulsão dos holandeses e a ocupacão definitiva da cidade pelos portugueses. A partir de então a influência portuguesa foi tão forte que fez com que o estado só aceitasse em 1823, quase um ano depois e após intervenção armada, a independência do Brasil de Portugal.
Hoje em dia, embalada pelo forte ritmo dos tambores, São Luís tem festa o ano inteiro. Para o turista em busca de diversão, não vai faltar agito ao som de reggae (a ilha é a capital nacional desse ritmo jamaicano), da música de raiz(local) e do forró.
O centro histórico, onde veículos não circulam, tem 3.500 prédios tombados. Na Praia Grande estão instalados os principais sobrados. Construções entremeadas por ruas de paralelepípedos, e que ainda trazem na fachada azulejos, de origem portuguesa ou francesa, marca registrada da capital maranhense. Trata-se do maior conjunto arquitetônico de origem civil portuguesa. O bairro, restaurado quase por inteiro pelo Projeto Reviver, é o ponto cultural de destaque na cidade.
Entre os principais locais procurados por turistas encontram-se o Largo do Palácio; o Cais da Sagração, onde costumavam ancorar os navios antigos; o Palácio dos Leões; a Catedral da Sé; a igreja do Carmo, construída em 1627, uma das mais antigas da cidade; o Museu de Artes Visuais; o Teatro Arthur Azevedo, o primeiro a ser construído em uma capital de estado brasileiro; a Fonte do Ribeirão (1796), que possui três portões de ferro dando acesso a passagens subterrâneas que servem para escoamento de águas pluviais; e a Feira da Praia Grande.
Em 1997, a Unesco reconheceu a cidade como Patrimônio da Histórico da Humanidade. Segundo o relatório da entidade "Não existe nada igual ao acervo cultural e arquitetônico de São Luís."
A ilha é cercada de belas praias que oferecem a contemplação de um pôr-do-sol dos mais belos do Nordeste. Entre as mais populares encontram-se a praia do Calhau; a da Ponta da Areia; a de São Marcos; a do Olho D'Agua e a praia do Araçaji.
Lençóis Maranhenses
A paisagem dos Lençóis Maranhenses é surpreendente. Um "deserto" entrecortado por lagoas de água doce, que secam por alguns meses e ressurgem na estação chuvosa. Nelas, misteriosamente, peixes, crustáceos e tartaruguinhas verdes reaparecem a cada ano como se nunca tivessem saído dali. A paisagem, redesenhada constantemente pela ventania, faz com que ninguém veja exatamente a mesma imagem duas vezes. Só é diferenciado de outros desertos pela incrivel quantidade de chuva: 300 vezes maior que no Saara.
A região faz parte do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, criado em 1981, com uma área equivalente a da cidade de São Paulo. É habitado por dunas, mangues, lagoas e restingas em um ecossistema raro no planeta, pela biodiversidade que abriga. São desde águas azuis cristalinas às dunas que chegam a atingir 40 metros de altura.
Existem linhas regulares de ônibus entre São Luís e Barreirinhas, a cerca de 350km da mesma. Também é possível ir de carro (a estrada é asfaltada) ou de táxi aéreo. Outra opção é ir de barco, pelo Rio Preguiças até Atins, nos limites do parque.
Barreirinhas possui hotéis simples, mais confortáveis, e restaurantes onde o turista pode encontrar o melhor da comida maranhese. Dentro do parque a melhor opcão é o camping selvagem. Sobrevoar a região proporciona uma dos mais belos ângulos de visão. Do alto, vê-se a imensidão de dunas brancas entrecortadas pelas lagoas coloridas. O vôo acompanha o leito do Rio Preguiças, que atravessa os Lençóis e leva esse nome em vitude da calmaria de suas águas.
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses é bastante extenso e sem estradas de acesso. Para conhecê-lo é preciso enfrentar as dunas e o forte calor, sempre em companhia de um guia local. Pequenas caminhadas podem ser feitas a pé. Para caminhadas mais longas, é preciso um veículo 4x4 ou até um tradicional jegue.
É indispensável que se leve água potável e lanche durante as caminhadas, além de óculos escuros e protetor solar. As temperaturas variam de 28ºC a 33ºC.
O POETA GONÇALVES DIAS
No início do século XVII a formação da elite rural do Estado, e o enriquecimento dos senhores proprietários das fazendas e dos engenhos, proporciou o envio dos seus filhos para serem educados na Europa, principalmente em Coimbra, os quais, quando retornaram para a província, saíram para a Corte onde exerceram funções de destaque e receberam títulos de nobreza. Dessas geracões originou-se o chamado grupo maranhense, constituído de poetas e prosadores que deram brilho ao Romantismo brasileiro e conquistaram para São Luís o cognome de "Atenas Brasileira". Pela obra lírica e indianista, Gonçalves Dias é o mais típico representante do Romantismo brasileiro e foi quem primeiro conferiu caráter nacional à literatura brasileira.
Canção do exílio (1843)
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores,
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o sabiá."
Goncalves Dias
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