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Entrevista: Manoel Carlos
Por: Renata Almeida | Sotaque Brasileiro, Numero 8, Primavera 2005

Em entrevista a Sotaque Brasileiro, Manoel Carlos fala sobre seus trabalhos, mulheres, vida pessoal e como se sente ao saber que Mulheres Apaixonadas é sucesso no Canadá.

Manoel Carlos

Segunda, terça, quarta, quinta e sexta-feira, quatro horas da tarde. Milhares de pessoas param tudo que estão fazendo para ligar a televisão no canal da OMNI 1. É hora da novela “Mulheres Apaixonadas”, sucesso de audiência do Brasil, que segue os mesmos passos no Canadá. Manoel Carlos, autor de Mulheres Apaixonadas e outros trabalhos de destaque como Por Amor e Laços de Família, conversou com a Sotaque Brasileiro sobre diversos assuntos. Aos 72 anos, esse paulista que ama o Rio de Janeiro garante que ainda vai visitar o Canadá e “apertar a mão de todos os brasileiros e portugueses”. Confiram!

Sotaque - Assim como no Brasil, a sua novela é sucesso no Canadá, principamente entre o público português e outros que falam nossa língua. Na sua opinão, a que você atribui esse sucesso, já que a novela é tão local?

Manoel Carlos - Acho que uma boa história, desde que bem contada, pode ser vista e apreciada em qualquer lugar do mundo. Afinal de contas, todos nós nos encantamos com filmes, peças de teatro e romances que são ambientados nos mais diversos recantos do planeta.

Sotaque - A novela trata de assuntos basicamente femininos. Os homens são meros coadjuvantes. Como você consegue entender tanto do universo da mulher?

MC - Sou um homem que sempre viveu cercado de mulheres. Fui criado mais por minha mãe do que por meu pai. Por duas irmãs mais velhas. Por duas avós (os avôs eu nem conheci). Por duas tias solteironas. E convivi com muitas primas. E minha casa vivia cheia de meninas, por causa das minhas irmãs. Isso do ponto de vista da influência que as mulheres possam ter exercido sobre mim e do prazer que tive em conhecê-las tão de perto. Fora isso, cresci admirando a mulher, percebendo o lugar dela no mundo machista. De como sempre foram discriminadas e de como souberam vencer tantas dificuldades. Na verdade, sou um apaixonado pela Mulher, como ser sensível e inteligente, intuitivo e generoso.

Sotaque - Amor, ciúmes, ódio, homossexualismo, alcoolismo, são alguns dos temas abordados em Mulheres Apaixonadas. Como foi sua pesquisa para compor personagens tão profundos e diferenciados?

MC - Trabalho com duas pesquisadoras muito eficientes e pedi com antecedência os dados necessários. Obviamente não é só isso. Sou um leitor voraz de livros e jornais. Sou um observador constante de tudo que acontece. E sou também um homem com boa experiência de vida, nos meus 72 anos de idade.

Sotaque - Como se sente ao saber que uma de suas novelas é sucesso de audiência em um país como o Canadá?

MC - Feliz, muito feliz. Até porque quero muito conhecer o Canadá. Por várias vezes estive para chegar lá, mas não foi possível. Quando estive em Chicago, em 1988, cheguei a reservar passagens e hotel, mas na última hora tive que voltar a Nova York e cancelei a minha ida. Mas não desisti. E tenho certeza que ainda nos veremos por aí.

Sotaque - Na novela, a violência carioca é retratada quando um dos personagens morre por uma bala perdida. Você não acha que isso prejudica a imagem do Brasil, principalmento quando ela é exibida em outros países?

MC - Acho muito bom mostrar o meu país como ele realmente é. E a cidade em que eu moro, o Rio, a mesma coisa. Realmente prejudica a imagem do Brasil, mas isso só acontece porque aqui as coisas não andam bem no que se refere à violência, ao desajuste social, à miséria. O governo brasileiro tem que sentir vergonha e quem sabe, apressar algumas providências que se fazem necessárias há séculos.

Sotaque - Você é paulista mas vive no Rio de Janeiro há anos. Considera-se carioca?

MC - Eu nasci em S. Paulo, capital, e lá morei por 38 anos. Vim para o Rio para dirigir o 1º show de Chico Buarque no Canecão e nunca mais saí. Isso aconteceu em 1971, o que significa que já estou nesta bela cidade há 34 anos. Sou um filho adotivo, apaixonado pelo Rio, mas não nego que sou de S. Paulo e meu comportamento vive cheio de peculiaridades paulistas.  

Sotaque - Em Por Amor e Laços de Família, personagens femininos também foram consagrados por você (nas atuações de Regina e Gabriela Duarte; Carolina Dieckmann e Vera Fisher). Por que mulheres merecem mais destaque em suas novelas?

MC - Porque admiro mais as mulheres. Como disse acima, elas se comportam diante da vida com mais heroísmo e sabedoria do que os homens. Sempre enfrentaram mais dificuldades. E por fim, porque são encantadoras.

Sotaque - Sobre o que gostaria de escrever e nunca foi permitido?

MC - Gostaria de voltar a fazer transposições de grandes romances para a televisão, tal como fiz nos anos 50. A grade da TV Globo não permite que seja criado um programa dessa natureza. Mas vou continuar tentando.

Sotaque - Como  explica o fenômeno "novela" no Brasil?

MC - Não existe nenhum entretenimento que seja mais atraente do que uma história que pode ser acompanhada no decorrer de quase um ano,  sem que para isso a pessoa precise sair de casa. Isso sem contar que é bastante barato. Numa novela, o público sonha, viaja, ama, sente uma gama imensa de emoções, sem se afastar da sua poltrona preferida, da companhia da sua família.

Sotaque - Dentre os seus trabalhos, qual foi o que mais gostou de desenvolver?

MC - Eu gosto do que faço. Por isso, faço com prazer e alegria, apesar do trabalho ser bastante exaustivo. Não sei qual das minhas novelas deva destacar. Todas me deram momentos de  satisfação.

Sotaque - Negativa ou positiva, qual foi a sua maior surpresa profissional até hoje?

MC - Eu conseguir chegar aos 72 anos ainda me sentindo com capacidade para continuar esse trabalho intenso. Sempre pensei que pararia antes, por minha vontade ou por necessidade

Sotaque - Como a indústria das novelas está se posicionando hoje frente ao mercado internacional?

MC - Bem, temos que estar sempre inovando, investindo, procurando saber o que o mercado quer ver e o que não quer. Acho que estamos antenados e que vamos continuar muito fortes no mercado.

Sotaque - E a competição no Brasil. Como anda?

MC - Essa é muito fraca, ainda que este ano outras emissoras tenham resolvido não ser tão passivas diante da TV Globo. TV Record, SBT e Bandeirantes estão reagindo e enfrentando a liderança da Globo. Isso é positivo para os profissionais e o público em geral.

Sotaque - Qual a tendência das novelas? Cobrirem assuntos atuais? Polemizar?

MC - As novelas são muito ricas em possibilidades e cada autor segue o seu estilo. Eu, por exemplo, gosto de fazer histórias urbanas, ambientadas no Rio de Janeiro e particularizando a classe média. Sempre caminho junto com o dia-a-dia da cidade e mostro a todos os problemas comuns e diários que estão à minha volta. Faço um realismo poético. Disso quase sempre resultam temas polêmicos.

Sotaque - Quais são seus futuros projetos? Em uma de suas entrevistas você afirmou  não gostaria mais de fazer novelas. Qual seria o motivo?

MC - Gostaria de fazer trabalhos menos massacrantes para ter mais tempo de convívio com minha familia. Aos 72 anos, ainda tenho filho de 13, que necessita da minha pesença constante, da minha atenção. E fazendo novela essa assiduidade fica mais dificil. Ainda não vai dar para parar desta vez, mas ainda penso conseguir isso.

Sotaque - Quando pretende visitar o Canadá?

MC - Ainda este ano. Estou com viagem marcada para os Estados Unidos em julho. E desta vez irei conhecer o Canadá, se Deus quiser.

Sotaque - Gostaria de dar um alô para os brasileiros e portuguêses no Canadá?

MC - Uma saudação de simpatia e carinho por me prestigiarem com sua atenção. Quando estiver ai, vou querer apertar a mão de todos os brasileiros e portugueses, ainda que sejam muitos. Até lá.

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