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Winnipeg para brasileiros
Por Alessandra Emília | Sotaque Brasileiro - Número 8, Primavera 2005
"Cidade grande com ares de interior"
Não diga na matéria que, por aqui, o frio pode chegar a -50 no inverno porque senão você espanta todo mundo!”. Não se preocupe, dona Mirna, depois de tudo o que vamos contar sobre sua cidade, pode ter certeza de que ninguém vai fugir de lá, e sim, fugir para lá.
A cidade de dona Mirna, brasileira nascida em São Paulo, mas imigrante no Canadá há quase 30 anos, fica situada no coração da América do Norte, mais precisamente na junção dos rios Red e Assiniboine. Estamos falando de Winnipeg, capital da província de Manitoba, oitava maior cidade do Canadá e potência do oeste do país.
Winnipeg é mais conhecida por nós, brasileiros, como cidade sede dos Jogos Pan-Americanos de 1999. Aliás, quem nunca irá esquecer de lá serão os atletas brasileiros Eder Fialho e Claudinei Quirino da Silva. O primeiro, por um motivo pouco nobre: o maratonista perdeu a chance de conquistar o ouro na competição por ter parado para um inesperado “pit stop” no banheiro por causa de uma dor de barriga causada por uma macarronada com molho de catchup. Já Quirino terá Winnipeg na memória por ter conquistado medalhas de ouro nos 200 m e bronze nos 100 metros rasos.
Mas, Winnipeg tem muito mais a ser lembrada do que somente ter sediado os Jogos Pan-Americanos, diga-se de passagem, pela segunda vez. A primeira foi em 1967. A cidade com nome de rio, cujo significado é “rio lamacento” na língua dos índios da tribo Cree, é considerada centro econômico e financeiro de Manitoba e principal cidade do oeste canadense. Com uma posição geográfica privilegiada, Winnipeg conta com uma vasta linha ferroviária com ligações diretas para várias províncias do país, Estados Unidos e até mesmo com o México.
Apesar disso, não vemos em Winnipeg a correria e o ritmo de vida alucinante característicos dos grandes centros urbanos. Com menos de 700 mil habitantes, na maioria imigrantes, poderíamos dizer que Winnipeg é uma cidade grande com ares de interior. Característica marcante é a diversidade de etnias: Winnipeg concentra o maior agrupamento de ucranianos fora da Ucrânia. Tem também uma das maiores populações menonitas do mundo e mais de 128 mil habitantes de origem aborígene ou métis.
Porém, tudo começou com os índios das tribos Assiniboias, considerados os primeiros habitantes de Manitoba. Em 1812, chegaram os escoceses, instalando o primeiro assentamento agrícola na região, hoje conhecido como Winnipeg, que só ganhou status de cidade em 1873, quando contava com uma população de 1,8 mil habitantes. A chegada do sistema ferroviário Canadian Pacific Railway, em 1885, trouxe à cidade uma era de crescimento e prosperidade que durou 30 anos. A Depressão de 1940 e a Primeira Guerra Mundial deram uma freada no crescimento. Desde 1945, Winnipeg tem mantido um progresso lento mas permanente, o que faz da cidade um pólo de atenção de migrantes e imigrantes. Entre eles, nós, brasileiros.
Não temos dados oficiais sobre o número de brasileiros em Winnipeg, mas segundo moradores mais antigos, como a professora Mirna, somos em torno de 300 habitantes atualmente. “A comunidade brasileira é uma população flutuante, ou seja, vem para cá, estuda, trabalha, fica alguns anos e vai embora”, diz ela.
Mirna Jungbauer-Wishart é formada em Ciências e Tecnologia e trabalha na biblioteca da Universidade de Manitoba. Ela percebeu que, de uns anos para cá, a demanda de estudantes brasileiros fazendo intercâmbio em high-school (equivalente ao nosso Ensino Médio, ou antigo Segundo Grau) vem aumentando na cidade.
É o caso da estudante de publicidade Talita Mina Marinho de Sousa, que desembarcou em Winnipeg em 2003 para cursar um semestre de high-school. Então com 17 anos, Talita diz que escolheu o Canadá por ter sido a opção mais barata entre Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, mas não se arrepende da escolha.
“Não poderia ter sido melhor”, diz a alegre cearense. “Fui extremamente bem recebida, desde os amigos da escola até os locais. Melhor ainda depois que dizia ser brasileira”. E, ao contrário do que pensa dona Mirna, nem o frio espantou a turista. “Foi a primeira vez que vi neve e um frio danado de 47 graus negativos. Mas, valeu a pena. A neve é linda!”, brinca Talita.
A experiência não valeu apenas pelo aprendizado técnico ou da língua inglesa, mas também pelas amizades que fez. Talita encantou as colegas de escola com nossa alegria, o “jeitinho brasileiro”. A canadense Brianne Saurete, de 17 anos, que o diga; ela gostou tanto de Talita e da nova cultura que não teve dúvidas: depois que a amiga voltou para o Brasil, Brianne fez as malas e foi também! Antes, fez aula de português e partiu para uma viagem de sete meses, onde conheceu Fortaleza, Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro. De volta ao frio canadense, fala com saudade da viagem e do que viu por lá. “É inacreditável a hospitalidade do povo”, lembra Brianne.
Porém, se Brianne quiser matar saudades do Brasil em Winnipeg, será um pouco difícil. Segundo Mirna, não há comércio brasileiro no local e os brasileiros, como já vimos, são poucos e não fixam morada tão facilmente, “talvez por causa do frio”, insiste em lembrar. A churrascaria que havia por lá há alguns anos, fechou. Mirna diz que, quando sente vontade de algum produto brasileiro, corre para a loja Marvin Foods, de dono caribenho, mas que mantém alguns produtos brasileiros nas prateleiras. “Até pão-de-queijo achei por lá esses dias”, brinca ela.
Verão em Winnipeg
Apesar do frio intenso no inverno, nem tudo é gelo pelos lados de Winnipeg. O verão é belíssimo, com temperaturas chegando 37º graus (positivos!!!) e longos dias com sol até 8, 9 horas da noite. É a época em que os luxuosos hotéis e restaurantes da cidade ficam lotados e a cidade ganha um novo colorido.
O que também atrai milhares de turistas é o “Folklorama”, festival gastronômico e cultural realizado em agosto reunindo as diversas comunidades de Winnipeg em duas semanas de evento. “É maravilhoso. Você pode assistir a espetáculos de dança, apresentações, experimentar comidas típicas de diversas culturas”, diz Mirna, que adora essa época do ano. “Adoro Winnipeg no verão. Nada é mais gostoso do que atravessar a ponte que liga o lado inglês da cidade com o lado francês e ir tomar um delicioso capuccino nos cafés da região”.
Arte é outro atrativo da cidade, que conta com a companhia de balé “Royal Winnipeg Ballet”, a “Wiinipeg Symphony Orchestra” e a “Winnipeg Opera Company”.
Depois de tudo isso, diga a verdade, dá vontade de fugir de um lugar desse?
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