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Crônica: conversa de padaria - copa do mundo
Por: Alessandra Emilia | Sotaque Brasileiro, Número 9, Verão 2005
Entrei na padaria e pedi um café com leite. Então um senhor do meu lado direito bateu com a mão no balcão e gritou:
– O Dida vale por três goleiros!
Enquanto eu olhava meio assustado para aquele senhor baixinho, calvo e barrigudo, mas de uma voz potente, meu café com leite foi servido no balcão.
– E o Cafu vale por 5 laterais! E o Lúcio vale por 4 zagueiros!
Resolvi pedir um pão de queijo e, apesar de ser péssimo em fazer contas, achei que com 12 jogadores a seleção não poderia entrar em campo. Foi aí que o baixinho desembestou.
– O Roque Júnior vale por 2 zagueiros! O Emerson por 5 volantes, assim como o número da camisa diz. O Roberto Carlos vale por 7 laterais! O Kaká por 7 armadores! O Zé Roberto por 4 volantes!
A vida é engraçada. Se observada de um balcão de padaria, mais ainda. Não há lugar melhor para se jogar conversa fora. Tomando um gostoso café com leite e comendo um pãozinho de queijo, bem crocante, melhor ainda. Mas a seleção do baixinho de voz de narrador de futebol tinha jogadores para encher um campo do estádio do Maracanã. Exagero a parte, era no mínimo uma seleção estranha – bastante numerosa.
– O Ronaldo vale por 10 centroavantes! O Ronaldinho vale por 10 armadores!
Então ele silenciou um pouco. O português da padaria gritou que o velho era louco. Todo mundo ia dar risada, quando o carequinha bateu no balcão de novo e disse o último nome. Deduzi que faltasse o Robinho, porque esse é o queridinho do Brasil – no momento. Pensei rápido que ele diria que o Robinho valeria um time inteiro, mas aí o cara exagerou.
– O Robinho vale por 37 atacantes!
Quase engasguei com o pão de queijo. Então o português gritou pela padaria que a seleção do Zé Boca Mole tinha exatamente 94 jogadores. Todo mundo na padaria deu risada, incluindo eu. Todo mundo não, o Zé ficou sério – impassível diante da chacota. Assim, dei meu último gole no café. Limpei a boca da farinha do pão de queijo. Levantei e fui pagar a conta. Mas para minha surpresa o Zé se atravessou na minha frente e com o dedo em riste – apontado pra mim – falou:
– E você quer saber?
Confesso que fiquei assustado.
– Você é a cara do Kaká!
Aí o velho endoidou de vez!!! Eu não pareço com o Kaká nem na cor dos olhos. Fiquei pasmo. O cara não era só louco – era também exótico. Eu estava de boca aberta olhando para o Boca Mole. Então falei para o cara:
– Você está brincando?
E o Zé Boca Mole gritou:
– Claro que estou! Você é feio pra caramba!
Todo mundo deu risada – incluindo eu. Paguei a conta e saindo da padaria escutei um tapa no balcão e um grito:
– O Brasil vai ser campeão do mundo!
Nenhum outro comentário. Agora todo mundo concordara com o Boca Mole.
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